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3 de ago. de 2014
15 de mar. de 2013
Luís Dolhnikoff - Poesia
À LUZ DA ANDALUZIA
quando acordo de manhã
penso no meu trabalho
na roupa que irei vestir
no tempo que vai fazer
no que comer no café
mas não em maomé
a direção do vento me afeta
muito mais que a de meca
se
ao longo do dia
penso
no islãé porque o islã
ao longo do dia
entra em minha casa
pelas mãos de uma notícia
nunca é positiva
puro preconceito da mídia
rezam os muçulmanos
isto considerando
em momentos de ócio
pus-me a pensar com minúcia
nos muitos afazeres humanos
não nos mais cotidianos
como comer, dormir, defecar
mas nos que pedem a mediação
do pensamento e da ação
em suma
o que se costuma chamar de cultura
fiz então uma pequena lista:
leis inovadoras
inovações artísticas
novidades tecnológicas
descobertas científicas
organização política
história olímpica
montagens de ópera
comédias teatrais
artes gráficas
crítica literária
estudos de filosofia
novos materiais
novas arquiteturas
viagens espaciais
necessidades especiais
pesquisa agrícola
design de automóveis
adestramento de cães
mapeamento da flora
indústria da moda
estudos de geologia
previsão meteorológica
previsão de terremotos
prevenção de acidentes
tratamento dos dentes
cirurgia estética
renovação da ética
novidades da ótica
inovações náuticas
astronáuticas
ou internáuticas
não importa quantos itens
se acrescentem à lista
a parte do islã
é bem específica:
encher o mundo de mesquitas
escolas corânicas
e mulheres mal-vestidas
porém na andaluzia
mil anos atrás
a estrela do islã reluzia
dizia-me uma tia
ao que eu, infiel e infeliz
respondia:
mas, titia
o mundo é maior que a andaluzia
e mil anos não são pouca porcaria
verdade, meu filho:
porém é mais polido
apontar nos demais suas qualidades
principalmente as raras
sim, titia:
mil anos atrás
na bela andaluzia
a estrela do islã reluzia...
6 de fev. de 2013
Joseph Campbell - O Poder do Mito
Sequência de seis vídeos de entrevistas de Bill Moyers com Joseph Campbell.
A primeira é indispensável, a segunda maravilhosa, a terceira sensacional, a quarta estupenda, a quinta fantástica e para a sexta acabaram os adjetivos.
1 - A Mensagem do Mito
2 - A Saga do Herói
3 - Os Primeiros Contadores de Histórias
4 - Sacrifice & Bliss - To follow your bliss
5 - Amor e a Deusa
6 - Máscara da Eternidade
A primeira é indispensável, a segunda maravilhosa, a terceira sensacional, a quarta estupenda, a quinta fantástica e para a sexta acabaram os adjetivos.
1 - A Mensagem do Mito
2 - A Saga do Herói
3 - Os Primeiros Contadores de Histórias
4 - Sacrifice & Bliss - To follow your bliss
5 - Amor e a Deusa
6 - Máscara da Eternidade
26 de jan. de 2013
A Língua da Poesia
por Ângelo Monteiro
A
breve e límpida apresentação de Fábio de Andrade ao segundo livro de Bernardo
Souto, Teatro de sombras consegue destacar dois elementos implicados em sua
poética: uma língua de sombra a perpassar esse teatro, oculta no silêncio por
trás das palavras, e a distinção fundamental entre esse dizer instantâneo, próprio
da poesia, e um certo minimalismo em moda, de que serve de exemplo o pífio
poema-piada. O poeta não esquece, para isso, o vaticínio da serpente,
nietzschianamente presente no seu retorno à terra, e daí não se negar à sua
lição:
Aprende o voo-flecha do
peixe
e vislumbrarás o eterno.
e vislumbrarás o eterno.
Impelido
pela força de cada canto o poeta não se cansa de "erigir/estátuas/de
vento", mas são essas estátuas, em sua contínua formação, por meio da
palavra, que vão dar sentido ao itinerário perseguido por ele, que não para de
refletir o próprio movimento das coisas em direção à linguagem. Narciso é a
imagem mais constante com que se depara toda busca humana, já que nenhum
buscador deixará de dizer: "Sou estátua/ fitando/ o espelho". Quem de
nós não se encontra permanentemente em luta entre o apelo de Narciso de se
voltar para a própria face, e o desejo de ser por alguém escutado, embora
saibamos que, ao fim de tudo, "nunca/ ninguém/ jamais/será escutado"?
Ou nos consolamos com a descoberta do lado ignorado de nossa face, ou tentamos
em vão ser compreendidos a partir da mensagem da qual nos julgamos fiéis
depositários.
Mas
insistimos em procurar a palavra não apenas enquanto meio de comunicação e,
sim, como via de acesso capaz de nos irmanar com as demais coisas, levando-nos a
outras formas de relação. Por isso nos diz Bernardo Souto:
só agora compreendo
o estranho idioma dos pássaros.
o estranho idioma dos pássaros.
Pois
é justamente esse idioma, que une o voo ao canto, que vai nos permitir a
passagem para além dos limites em que nos estreitamos: é ele que nos fará
chegar à língua da sombra e, por ela, ao estatuto mais íntimo de toda
realidade, àquele estatuto por acaso pressentido por Hans Christian Anderson
quando escreveu: "É da realidade que moldamos as nossas histórias de
imaginação". De igual forma podemos falar da origem de todos os
verdadeiros poemas. E como o canto é inseparável do conto – porque em ambos
habita o mito – será nosso fado sempre esperar algo da poesia, porque só ela,
em suas expressões cada vez mais novas e imprevisíveis, por vir da realidade,
detém o poder de restaurá-la, quando não de salvá-la.
23 de jan. de 2013
Os Seios da Terra
Meu
peito é eterna bondade-semente
da
mãe-natureza, prenhe de doces frutos,
o
sangue corrente nas veias da gente
é
o mesmo que corre nos bichos mais brutos.
Meu
peito é um rio de águas bem claras
que
o homem moderno inda não sujou,
seu
leite é o leito onde as aves mais raras
molham
as belas penas quando faz calor.
Meu
peito sacia a fome de amor
de
paz e justiça dos filhos da terra.
Bicho-homem,
perdido em intensa agonia,
Meu
peito é um bálsamo que cura tua dor.
Queria
que os meninos da rua e da guerra
mamassem
em meu peito a eterna alegria.
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