14 de fev. de 2013
12 de fev. de 2013
As nações não têm interesses
por Carlos Alberto Montaner, para o jornal paraguaio ABC Color
Jeane Kirkpatrick, a notável ensaísta e diplomata americana da era Reagan, costumava dizer, com alguma tristeza, que ela, como acadêmica, tinha sido treinada para buscar a verdade, mas, como diplomata, às vezes sua detestável função era ocultá-la.
O professor panamenho Guillermo (Willy) Cochez, proeminente democrata-cristão, ex-embaixador de seu país à OEA no atual governo de Ricardo Martinelli, enfrentou um dilema semelhante aos que mortificavam Kirkpatrick, e optou por dizer a verdade e obedecer à sua consciência, em vez de mentir ou esconder-se atrás de uma montanha de eufemismos. Essa postura lhe custou o emprego, mas ele ganhou o respeito de muitas pessoas.
O incidente ocorreu em 16 de janeiro na sede da OEA em Washington. Naqueles dias, se avaliava o caso insólito do presidente reeleito dos venezuelanos, Hugo Chávez, internado em um hospital de Havana, supostamente morrendo ou em estado muito grave, circunstância que deveria resolver-se de acordo com a Constituição, cujo texto estabelecia claramente que, ante fatos dessa natureza, deveriam realizar-se eleições em trinta dias, convocada pelo presidente da Câmara.
Ao Embaixador Cochez, que também é professor na Faculdade de Direito de uma universidade panamenha, pareceu intolerável o governo venezuelano violar a lei, ignorar a ausência de Chávez, e transmitir ilegalmente a autoridade ao vice-presidente Nicolas Maduro, tudo isso com a aprovação da OEA e de seu cantinflesco secretário-geral, José Miguel Insulza. Anteriormente, o mesmo organismo julgou com muita severidade as destituições dos presidentes Manuel Zelaya, de Honduras, e Fernando Lugo, do Paraguai, embora ambos os processos tenham se realizado dentro da lei em vigor nesses países.
Para Cochez, que tinha uma longa história pessoal de luta contra a narcotirania panamenha de Manuel Noriega, e de solidariedade com outros países que tentavam estabelecer a democracia, como no El Salvador de Napoleão Duarte na década de oitenta, seu amigo e compadre social-cristão, esta era uma oportunidade de dizer a verdade e ajudar os venezuelanos livres a denunciar o que realmente estava ocorrendo na Venezuela.
Em última análise, a Carta Democrática, assinada por todos os países membros da OEA, dava razão a Cochez. A Venezuela não era uma democracia verdadeira, mas uma variante de despotismo, sancionada nas urnas, onde não se respeitavam os direitos das minorias e não existiam poderes independentes. O Caudilho havia fagocitado as funções do Judiciário, enquanto o Parlamento, com uma maioria imposta por regras eleitorais abusivas, era apenas uma caixa de ressonância da voz do dono.
Jeane Kirkpatrick, a notável ensaísta e diplomata americana da era Reagan, costumava dizer, com alguma tristeza, que ela, como acadêmica, tinha sido treinada para buscar a verdade, mas, como diplomata, às vezes sua detestável função era ocultá-la.
O professor panamenho Guillermo (Willy) Cochez, proeminente democrata-cristão, ex-embaixador de seu país à OEA no atual governo de Ricardo Martinelli, enfrentou um dilema semelhante aos que mortificavam Kirkpatrick, e optou por dizer a verdade e obedecer à sua consciência, em vez de mentir ou esconder-se atrás de uma montanha de eufemismos. Essa postura lhe custou o emprego, mas ele ganhou o respeito de muitas pessoas.
O incidente ocorreu em 16 de janeiro na sede da OEA em Washington. Naqueles dias, se avaliava o caso insólito do presidente reeleito dos venezuelanos, Hugo Chávez, internado em um hospital de Havana, supostamente morrendo ou em estado muito grave, circunstância que deveria resolver-se de acordo com a Constituição, cujo texto estabelecia claramente que, ante fatos dessa natureza, deveriam realizar-se eleições em trinta dias, convocada pelo presidente da Câmara.
Ao Embaixador Cochez, que também é professor na Faculdade de Direito de uma universidade panamenha, pareceu intolerável o governo venezuelano violar a lei, ignorar a ausência de Chávez, e transmitir ilegalmente a autoridade ao vice-presidente Nicolas Maduro, tudo isso com a aprovação da OEA e de seu cantinflesco secretário-geral, José Miguel Insulza. Anteriormente, o mesmo organismo julgou com muita severidade as destituições dos presidentes Manuel Zelaya, de Honduras, e Fernando Lugo, do Paraguai, embora ambos os processos tenham se realizado dentro da lei em vigor nesses países.
Para Cochez, que tinha uma longa história pessoal de luta contra a narcotirania panamenha de Manuel Noriega, e de solidariedade com outros países que tentavam estabelecer a democracia, como no El Salvador de Napoleão Duarte na década de oitenta, seu amigo e compadre social-cristão, esta era uma oportunidade de dizer a verdade e ajudar os venezuelanos livres a denunciar o que realmente estava ocorrendo na Venezuela.
Em última análise, a Carta Democrática, assinada por todos os países membros da OEA, dava razão a Cochez. A Venezuela não era uma democracia verdadeira, mas uma variante de despotismo, sancionada nas urnas, onde não se respeitavam os direitos das minorias e não existiam poderes independentes. O Caudilho havia fagocitado as funções do Judiciário, enquanto o Parlamento, com uma maioria imposta por regras eleitorais abusivas, era apenas uma caixa de ressonância da voz do dono.
Ante este episódio, que mostra a consistência moral de Guillermo Cochez e a linguagem dupla e a covardia de muitas chancelarias, vale a pena recordar um item que é muitas vezes esquecido: é falso que as nações devem escolher entre os seus interesses e seus princípios.
Na realidade, as nações somente podem ter princípios. Nações são abstrações. São tribos unidas por laços espirituais intangíveis. São os indivíduos, as empresas, os partidos, que têm interesses.
O Senhor Chávez tem corrompido numerosos grupos e líderes políticos com suas maletas cheias de petrodólares, como as que se descobriram na Argentina; e tem extirpado a decência de comportamento de países pequenos que se beneficiam de envios de petróleo em condições favoráveis, como ocorre em quase todo o Caribe, mas essa conduta imoral tem um nome no direito penal: "submissão voluntária à extorsão".
Todos esses políticos e governantes latino-americanos que olham para outro lado quando o chavismo atropela os venezuelanos, fecha ou assedia os meios de comunicação, ajuda as narcoguerrilhas comunistas colombianas, conspira com a ditadura teocrática iraniana para desenvolver armas nucleares, ou contribui com recursos para o triunfo de seus cúmplices na construção desta grande jaula chamada socialismo do século XXI, não estão defendendo os interesses de seus países: estão pisoteando os princípios em que se assentam suas nações. Estão apodrecendo as bases morais das sociedades que dizem representar. Isso, simplesmente, é muito grave.
Obrigado, Embaixador Cochez, por se opor a essa imundície.
Na realidade, as nações somente podem ter princípios. Nações são abstrações. São tribos unidas por laços espirituais intangíveis. São os indivíduos, as empresas, os partidos, que têm interesses.
O Senhor Chávez tem corrompido numerosos grupos e líderes políticos com suas maletas cheias de petrodólares, como as que se descobriram na Argentina; e tem extirpado a decência de comportamento de países pequenos que se beneficiam de envios de petróleo em condições favoráveis, como ocorre em quase todo o Caribe, mas essa conduta imoral tem um nome no direito penal: "submissão voluntária à extorsão".
Todos esses políticos e governantes latino-americanos que olham para outro lado quando o chavismo atropela os venezuelanos, fecha ou assedia os meios de comunicação, ajuda as narcoguerrilhas comunistas colombianas, conspira com a ditadura teocrática iraniana para desenvolver armas nucleares, ou contribui com recursos para o triunfo de seus cúmplices na construção desta grande jaula chamada socialismo do século XXI, não estão defendendo os interesses de seus países: estão pisoteando os princípios em que se assentam suas nações. Estão apodrecendo as bases morais das sociedades que dizem representar. Isso, simplesmente, é muito grave.
Obrigado, Embaixador Cochez, por se opor a essa imundície.
9 de fev. de 2013
A mágica dos batedores de carteira acabou. A farsa mostra os dentes
por Reynaldo Rocha
Havia
uma herança, qualificada de maldita pelos asseclas dos corruptos que
transformaram um país real em uma ilusão de circo.
Esta
herança permitiu que embriagados governantes e mentirosas coléricas assumissem
o comando do Brasil, E fossem mitificados. Como se tivessem participado de
construções que sequer os admitiriam como auxiliares de pedreiro.
Como
vulgares batedores de carteira, proclamaram-se donos do que roubaram. E
tentaram mais: roubar a história.
Distribuiram
cargos a incompetentes. Bastava que fossem fiéis ao comando da quadrilha.
Ressuscitaram cadáveres que sepultamos em cova rasa. Uniram-se à podridão, a
tal ponto que não conseguimos mais distinguir a lama do esgoto. São uma coisa
só.
É
caso de festejar o que está por vir? O retorno da inflação, o perverso imposto
que sufoca a todos?
Não
creio. Não quero. Não desejo.
Mas
parece-me inevitável. Nada do que se disse, expôs e cobrou foi levado em conta. Os ignorantes
orgulhosos preferiram debitar as críticas na conta de sempre: só discordam do
governo iluminado os que sempre são do contra.
Reclamar
do inchaço da máquina administrativa? Da ineficiência derivada da falta de
planejamento? Da corrupção que multiplica por dois o valor de
qualquer obra? Dos companheiros que nunca souberam administrar sequer uma loja
de R$ 1,99? Da ingerência absurda do Estado na economia, só chamando a odiada
(por eles) iniciativa privada quando não há mais conserto nem recurso?
Valeu
trocar “privatização” por “desestatização”, como agora se lê?
A
fórmula de FHC não era poção mágica. Era caminho, direção. Eles nunca
entenderam isto. Os ignorantes que nada sabem fingem saber de tudo.
A
Petrobras arrasada por Gabrielli e Lula. O BNDES reduzido a agência de socorro
para amigos do governo. Fundos de pensões estatais aplicam mal e
porcamente o dinheiro dos associados.
E
assim se cria uma ilusão. Guido Mantega, como Cristina Kirchner, já é uma piada
internacional. A credibilidade que o Brasil conseguiu ─ a duras penas ─ no governo FHC e foi
mantida por Henrique Meireles (tucano, nunca aceito pelos geniais economistas
do PT!) está perdida.
A
nós resta a certeza de que virão dias difíceis. A mágica acabou. A farsa mostra
os dentes.
Restará
uma herança. Esta sim, maldita.
Na
era da mediocridade, perdemos o que ganhamos.
A
dignidade, a ética, a supremacia da verdade, o respeito ao estado de direito e
à diversidade de ideias, isso já estava perdido.
Perderemos
a última construção de governos anteriores.
Eles
não se importam. Nunca se importaram com nada que não fosse elogio ou histérica
idolatria.
O
que vai sobrar?
Sem
oposição, sem crítica e sem quem nos represente, resta observar o covil dos
lulopetistas destruindo com as patas sujas o que nunca conseguiram entender.
E
que nós, mais uma vez, teremos que reconstruir.
Resta
saber com quem.
Santa Maria - A tragédia e seus sócios
por Guilherme Fiuza
(...)
A
Kiss era um coquetel de riscos – evidentes – que não foram evitados for uma
soma de omissões. Mas tragédia com muitos culpados dificulta o espetáculo do
linchamento. Por que o músico da banda foi preso? Porque o show tem que
continuar.
E
hoje não pode haver show grandioso no Brasil sem a presença do governo popular.
Num passe de mágica, poucas horas depois do incêndio, quem estava em todas as
manchetes? “Dilma cancela”, “Dilma volta”, “Dilma chora”. E Dilma faz comício
para milhares de prefeitos, ordenando-lhes que a tragédia de Santa Maria não se
repita. Como é fácil ser presidente.
Já
que seu discurso nunca quer dizer nada, o jeito é entendê-la por gestos. Aí
tudo fica claro: escondido na aba da presidente, por exemplo, há um ministro com
alvará vencido. Após faturar R$ 2 milhões com consultorias fantasmas, Fernando
Pimentel foi interditado pela Comissão de Ética da Presidência. O que fez
Dilma, a sensível? Interditou a Comissão de Ética – e manteve o ministro
pirotécnico no cargo.
Este
é apenas um dos muitos exemplos de legalidade que a líder da nação oferece a
bombeiros, prefeituras e donos de boate. Sem falar no risco energético que o
país corre para sustentar o truque da bondade tarifária.
Assim
o governo popular estimula o cumprimento das regras: durante anos, a presidente
e seu padrinho mantiveram como sua representante oficial Rosemary Noronha, que
atuava sobre as agências reguladoras – as que criam as regras – como negociante
de cargos e propinas. As ações dos companheiros de Dilma que não deixam dúvida:
driblar a lei dá lucro.
Os
donos de boates piratas em todo o Brasil têm, portanto, em quem se espelhar.
Por esse ângulo, até dá para entender que Dilma seja a estrela da tragédia.
6 de fev. de 2013
Joseph Campbell - O Poder do Mito
Sequência de seis vídeos de entrevistas de Bill Moyers com Joseph Campbell.
A primeira é indispensável, a segunda maravilhosa, a terceira sensacional, a quarta estupenda, a quinta fantástica e para a sexta acabaram os adjetivos.
1 - A Mensagem do Mito
2 - A Saga do Herói
3 - Os Primeiros Contadores de Histórias
4 - Sacrifice & Bliss - To follow your bliss
5 - Amor e a Deusa
6 - Máscara da Eternidade
A primeira é indispensável, a segunda maravilhosa, a terceira sensacional, a quarta estupenda, a quinta fantástica e para a sexta acabaram os adjetivos.
1 - A Mensagem do Mito
2 - A Saga do Herói
3 - Os Primeiros Contadores de Histórias
4 - Sacrifice & Bliss - To follow your bliss
5 - Amor e a Deusa
6 - Máscara da Eternidade
2 de fev. de 2013
Biblioteca do Vaticano na Internet
Já estão disponíveis na Internet os primeiros 256 manuscritos - como a iluminura acima -, de um projeto que pretende tornar acessíveis 80 mil documentos da Biblioteca do Vaticano.
27 de jan. de 2013
Antimagneto: Invisibilidade magnética prática e simples
![]() |
| Um objeto colocado no interior do cilindro, além do próprio cilindro, são magneticamente indetectáveis. |
Cientistas
criaram uma camuflagem magnética extremamente simples, e que foge da linha
tradicional das pesquisas na área, que vinha se baseando exclusivamente nos metamateriais.
O
dispositivo, que fica totalmente invisível a um campo magnético, foi fabricado
com materiais comprados no comércio, o que aponta para aplicações práticas a
curto prazo.
Além dos metamateriais
A
ciência dos dispositivos de camuflagem, ou mantos da invisibilidade nasceu como uma curiosidade
teórica há poucos anos, mas migrou rapidamente para os laboratórios, e vem
atiçando a curiosidade do público e dos cientistas.
No
ano passado, Alvaro Sanchez e seus colegas da Universidade Autônoma de Barcelona
publicaram um artigo no qual demonstravam toda a teoria necessária para construir a camuflagem magnética, ou
antimagneto, como eles chamavam o aparato.
Com
suas equações embaixo do braço, os teóricos espanhóis contataram
experimentalistas da Academia Eslovaca de Ciências, especialistas em medições
muito precisas de campos magnéticos.
Fedor
Gomory e seus colegas demoraram apenas alguns poucos meses para demonstrar o
antimagneto na prática e confirmar as teorias do grupo espanhol.
O
resultado é um desvio inesperado na área, mostrando que os metamateriais não
são essenciais para criar invisibilidades.
Antimagneto
O
manto da invisibilidade magnética, ou camuflagem magnética, consiste de um
cilindro composto de duas camadas concêntricas.
A
camada interna é um material supercondutor, que repele o campo magnético,
enquanto a camada exterior é composta de um material ferromagnético - uma liga
de ferro, níquel e cromo -, que atrai o campo magnético.
A
camada supercondutora do cilindro impede que o campo magnético alcance o
interior da camuflagem, mas distorce as linhas do campo ao seu redor.
A camada
ferromagnética interna produz o efeito oposto: ela atrai as linhas do campo
magnético, compensando a distorção criada pelo supercondutor, mas sem permitir
que o campo magnético entre no interior do cilindro.
A camada
ferromagnética do cilindro atrai as linhas do campo magnético (esquerda),
enquanto a camada supercondutora os repele (direita).
|
O
efeito global é um espaço interno do cilindro sem nenhum campo magnético, e
absolutamente nenhuma distorção no campo magnético externo. Em
outras palavras, não é possível detectar nem o cilindro e nem o objeto que for
colocado em seu interior.
Aplicações médicas
Como
o dispositivo foi fabricado com materiais disponíveis no comércio - o
experimento inteiro custou US$1.300,00 -, e como ele opera em campos magnéticos
relativamente fortes, os cientistas afirmam que ele poderá ser prontamente
usado na prática.
Vale
lembrar que, como usa um supercondutor, o dispositivo precisa de nitrogênio líquido
para funcionar - mas equipamentos de imageamento médico também precisam.
Os
cientistas citam como possibilidade de aplicação prática, por exemplo, um
dispositivo que torne marca-passos e outros implantes médicos invisíveis aos
campos magnéticos, permitindo que pacientes portadores desses implantes possam
usufruir dos exames mais modernos, como a ressonância magnética.
Por
outro lado, é fácil também imaginar aparatos não tão bem intencionados, como um
antimagneto para esconder armas dos detectores magnéticos dos aeroportos. Mas,
além de ainda ser impensável esconder um dispositivo criogênico com as
dimensões necessárias, os aeroportos contam com outros mecanismos de checagem,
como máquinas de raios X.
Cancelar o magnetismo
Os
cientistas estão perfeitamente familiarizados com o processo de
"criar" magnetismo - 99% da energia consumida no mundo usa geradores
baseados no magnetismo, o fenômeno está presente em todos os motores elétricos
e é a base de todo o armazenamento digital de dados.
Mas
cancelar o magnetismo tem-se mostrado um desafio tanto científico
quanto tecnológico.
Esta
nova camuflagem magnética abre o caminho para que isso possa ser feito de
maneira muito flexível, incluindo outras aplicações na tecnologia da informação,
como a blindagem de dados armazenados magneticamente.
Fonte: Inovação Tecnológica
26 de jan. de 2013
A Língua da Poesia
por Ângelo Monteiro
A
breve e límpida apresentação de Fábio de Andrade ao segundo livro de Bernardo
Souto, Teatro de sombras consegue destacar dois elementos implicados em sua
poética: uma língua de sombra a perpassar esse teatro, oculta no silêncio por
trás das palavras, e a distinção fundamental entre esse dizer instantâneo, próprio
da poesia, e um certo minimalismo em moda, de que serve de exemplo o pífio
poema-piada. O poeta não esquece, para isso, o vaticínio da serpente,
nietzschianamente presente no seu retorno à terra, e daí não se negar à sua
lição:
Aprende o voo-flecha do
peixe
e vislumbrarás o eterno.
e vislumbrarás o eterno.
Impelido
pela força de cada canto o poeta não se cansa de "erigir/estátuas/de
vento", mas são essas estátuas, em sua contínua formação, por meio da
palavra, que vão dar sentido ao itinerário perseguido por ele, que não para de
refletir o próprio movimento das coisas em direção à linguagem. Narciso é a
imagem mais constante com que se depara toda busca humana, já que nenhum
buscador deixará de dizer: "Sou estátua/ fitando/ o espelho". Quem de
nós não se encontra permanentemente em luta entre o apelo de Narciso de se
voltar para a própria face, e o desejo de ser por alguém escutado, embora
saibamos que, ao fim de tudo, "nunca/ ninguém/ jamais/será escutado"?
Ou nos consolamos com a descoberta do lado ignorado de nossa face, ou tentamos
em vão ser compreendidos a partir da mensagem da qual nos julgamos fiéis
depositários.
Mas
insistimos em procurar a palavra não apenas enquanto meio de comunicação e,
sim, como via de acesso capaz de nos irmanar com as demais coisas, levando-nos a
outras formas de relação. Por isso nos diz Bernardo Souto:
só agora compreendo
o estranho idioma dos pássaros.
o estranho idioma dos pássaros.
Pois
é justamente esse idioma, que une o voo ao canto, que vai nos permitir a
passagem para além dos limites em que nos estreitamos: é ele que nos fará
chegar à língua da sombra e, por ela, ao estatuto mais íntimo de toda
realidade, àquele estatuto por acaso pressentido por Hans Christian Anderson
quando escreveu: "É da realidade que moldamos as nossas histórias de
imaginação". De igual forma podemos falar da origem de todos os
verdadeiros poemas. E como o canto é inseparável do conto – porque em ambos
habita o mito – será nosso fado sempre esperar algo da poesia, porque só ela,
em suas expressões cada vez mais novas e imprevisíveis, por vir da realidade,
detém o poder de restaurá-la, quando não de salvá-la.
23 de jan. de 2013
Os Seios da Terra
Meu
peito é eterna bondade-semente
da
mãe-natureza, prenhe de doces frutos,
o
sangue corrente nas veias da gente
é
o mesmo que corre nos bichos mais brutos.
Meu
peito é um rio de águas bem claras
que
o homem moderno inda não sujou,
seu
leite é o leito onde as aves mais raras
molham
as belas penas quando faz calor.
Meu
peito sacia a fome de amor
de
paz e justiça dos filhos da terra.
Bicho-homem,
perdido em intensa agonia,
Meu
peito é um bálsamo que cura tua dor.
Queria
que os meninos da rua e da guerra
mamassem
em meu peito a eterna alegria.
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