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18 de fev. de 2013

Algo me faz lembrar Gandhi


Yoani Sánchez chega ao Brasil
Reportagem de hoje, no Estadão

Roberto Pereira/Estadão
Ativista foi recebida por amigos e manifestantes que a acusavam de 'trair o movimento'
A blogueira cubana e colunista do 'Estado' Yoani Sánchez já está no Brasil. Ela desembarcou no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife, por volta de 0h30 desta segunda-feira, 18. A ativista foi recebida por amigos e, ainda no saguão do aeroporto, manifestantes carregavam faixas, na qual acusavam Yoani de 'trair o movimento, receber dinheiro americano para ser revolucionária, além de ter uma conta milionária'. 
Yoani Sánchez saiu de Havana neste domingo, 17, em direção ao Brasil. O País é a primeira escala de um giro que a opositora do regime castrista - uma das mais famosas mundo afora - pretende empreender por mais de dez nações, das Américas e da Europa, nos próximos meses. A expectativa é que a dissidente chegue em São Paulo na noite da quarta-feira.
“Levo comigo uma mensagem de esperança. Não sou ingênua, me dou conta dos problemas, mas creio no futuro”, afirmou Yoani a repórteres no Aeroporto Internacional José Martí, pouco antes de embarcar para o Recife, fazendo uma escala na Cidade do Panamá. “Isso será como 'A volta ao mundo em 80 dias'.”
Vestida com uma saia azul-marinho e uma blusa larga branca, a blogueira de 37 anos despediu-se de seu filho adolescente, Teo, e de seu marido, o também dissidente Reinaldo Escobar, antes de passar pela checagem para deixar seu país. Aproximou-se sorrindo da cabine do agente de imigração, que, timidamente, também exibia um sorriso.
“Meu nome não soou nos alto-falantes, não me levaram a um quarto para despir-me ou “ler a cartilha para mim”. Tudo está saindo bem. (Foi) muito calorosa a reação dos (demais) passageiros comigo. Há abraços, fotos em conjunto... já sinto o cheiro da liberdade”, tuitou Yoani momentos depois. No microblog, a ativista mostrou-se ainda mais deslumbrada com as experiências que a aguardavam: “Me disseram que o aeroporto do Panamá, onde farei escala, tem uma zona wi-fi (internet sem fio)... não posso acreditar!”.
Mas Yoani não era apenas otimismo. “Minha preocupação é com os que ficam. Temo que a penalização à diferença continue”, tuitou, afirmando que tem receio ainda de que “os atos de repúdio se mantenham”.
“Temo que as detenções arbitrárias continuem como uma ferramenta de repressão. Temo que o grito se mantenha como política de Estado. Temo que neste tempo minha ilha não avance nenhum passo no respeito à diversidade ideológica, que o extremismo político permaneça.”
Em seus últimos tuítes antes de o avião decolar, porém, a blogueira manifestou certo alento: “No entanto, tenho muitas esperanças. Tenho esperanças de que a pequena voz que a cidadania alcançou seja escutada mais forte, se faça mais firme e clara. Tenho esperanças de que o absurdo não pode durar muito mais”.
Recife. Na capital pernambucana, Yoani seria recebida no início da madrugada de segunda pelo cineasta Dado Galvão e pelo blogueiro Rafael Velame, organizadores da “vaquinha” que possibilitou a vinda da cubana para o Nordeste brasileiro. Às 19 horas de segunda, deverá ser exibido o documentário Conexão Cuba Honduras, em Feira de Santana, Bahia.
Na quinta-feira, às 10 horas, a cubana participa do debate “Conversa com Yoani”, na sede do Estado, na zona norte de São Paulo. No mesmo dia, encontra-se com blogueiros na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, no fim da tarde, e logo depois lança a nova edição de seu livro De Cuba, com Carinho, publicado pela Editora Contexto, e concede uma sessão de autógrafos.


Yoani Sánchez, ao lado do cineasta Dado Galvão, chega ao Brasil: militantes pró-ditadura no encalço (Edmar Melo/EFE)

[“Isso é a democracia. Queria que em meu país pudéssemos expressar opiniões e propostas diferentes com esta liberdade”.]

Tara

Aquela velha praxis de recriar o passado.



17 de fev. de 2013

E da esbórnia fez-se a ordem

Grande post do blog Vespeiro:



Não, nem tudo está perdido. Há razões para sermos otimistas.

Na ressaca da queda do Congresso Nacional (Renan, Henrique Eduardo Alves) segui para os feriados do Carnaval, um tanto deprimido, com uma pergunta – “Porque o povo não reage?” (aqui) – e uma meia resposta – “Não ha ética, senhores. O que pode haver é polícia…” (aqui).

Três dias depois a leitora Helena Maria de Souza que, a julgar pelo que ela nos deixa entrever, é professora de escola pública, reagiu no espaço para comentários aqui doVespeiro, mas com outro desabafo parecido com o meu (aqui):

“Nós adoramos depender do Estado (pai patrão)…”, dizia ela.

“Tanto nas universidades quanto nos hospitais (públicos) o que mais se vê é a briga pelo poder”…



“É preciso que todos se sintam incapacitados, dependentes do Estado, dos governos e dos demagogos de plantão”…

“…revoltar-se contra o lulo-petismo implantado no país é ter de revoltar-se contra si mesmo. E deixar de se ver no espelho. Isto é possível?????

Com a palavra a psicanálise”.

Sim, Helena, tudo que você descreve é verdade.

Eu só discordo do verbo. Não é assim que nós somos. É assim que nós estamos.

E isso faz toda a diferença.

O homem é o bicho mais maleável da Natureza. O que mais rapidamente aprende com a adversidade e molda o seu comportamento para adaptar-se a ela.



Mas isso é uma faca de dois gumes.

Se esta característica jogou decisivamente a nosso favor enquanto se tratou de escapar ao jugo da Natureza, ela passou a jogar contra nós desde que, libertados dele, o problema passou a ser escapar ao jugo dos outros homens.

Você mencionou a “luta pelo poder”. Este é, pode-se dizer, um dos traços “recessivos” da nossa condição ancestral.

“Lutamos pelo poder” com as pernas e com os dentes enquanto foram essas as armas a definir quem tinha e quem não tinha o direito de transmitir os seus genes para mais adiante. Passaremos, eu espero, a faze-lo exclusivamente com o cérebro e a aplicação do conhecimento se chegarmos, um dia, a banir completamente a força bruta dessa contenda. Mas por enquanto, nesta fase intermediária em que nos encontramos, num ambiente onde a economia substitui a fome pura e simples que nos movia antes, a condição econômica de cada um é que passou a ser o fator de decisão.



As pernas e os caninos continuam lá, onde sempre estiveram, a nos lembrar do que essencialmente somos. Mas já não é a jugular do próximo que é preciso, literalmente, morder para ganhar o direito de continuar por aí e garantir um lugar para a sua posteridade. Basta aferrar-se a alguma boa veia da economia para garantir, para si e para os seus, um lugar ao sol.

A regra de ouro de Darwin – “sobrevivência dos mais adaptados” – continua valendo, intacta.

O que foi, então, que mudou?

Mudou quem faz a regra do jogo. Antes era a Natureza. E alterar a qualidade da regra estava totalmente fora do nosso alcance. Hoje a regra é feita por outros homens. Pode, portanto, ser alterada.

É a este progressivo ganho de manobrabilidade sobre a regra que se resume a epopéia que chamamos de “esforço civilizatório”.



O Brasil inteiro assistiu, por estes dias, os desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo tantas vezes invocados, geralmente pelo lado negativo, como o retrato do que somos enquanto sociedade. Li que o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meireles, falou da complexa organização que esses desfiles envolvem, mas perdi a matéria quando saiu e não sei em que termos ele o fez. De qualquer maneira a observação é preciosa.

Uma escola de samba evoluindo pela avenida é algo muito mais complicado que os mecanismos de relojoaria que, no passado, fizeram a fama mundial do modo de organização suíço.

São quatro, cinco mil “peças” com funcionamento individual independente divididas em subconjuntos encadeados entre si, evoluindo todas no mesmo ritmo mas cada uma com movimentos e funções diferenciadas, um olho no todo outro no seu subtema particular (abre-alas, baianas, passistas, porta-bandeiras, alas temáticas, “bateras”, destaques, etc) fazendo evoluções complicadas em direção a um objetivo comum e executando esse todo com precisão milimétrica de tempo e espaço.



E tudo isso rola na maior alegria, sem falar nas enormes doses de criatividade, dedicação gratuita e altruísmo (ainda) envolvidas na coisa.

Ou seja, até na festa que, pela sua outra vertente, é sinônimo de esbórnia, o brasileiro é capaz de se organizar impecavelmente e vencer pelo merecimento desde que haja uma regra igual para todos e efetivamente imposta entre ele e o objetivo a ser conquistado.

Da esbórnia faz-se a ordem e a harmonia porque este é o único caminho para prevalecer na disputa por esse campeonato (a “luta pelo poder”) e cada erro, cada passo fora da regra custa, infalivelmente, a perda de pontos até o limite do rebaixamento ou da desclassificação.

É mais uma imitação da vida, como tudo que nós, humanos, “inventamos”, governos inclusive.



É aí que entra o meu ponto. O Brasil e os brasileiros não são, irremediavelmente, o que lhe parece que sejam neste momento de triunfo dos desviados. O Brasil e os brasileiros estãocomo você descreve, Helena, porque esta é a regra que lhes é imposta, desde “lá”, da mais alta tribuna que o país inteiro vê e ouve.

Quem não entra na putaria não entra na política. O bom comportamento é sistematicamente punido e a sacanagem infalivelmente premiada. Não é que lhes é dado exibi-lo; os corruptos literalmente esfregam o seu sucesso na cara do país; afirmam abertamente que foi através da corrupção que o obtiveram. E é de “lá” que a regra desce Brasil abaixo.

O país inteiro é capaz de apontar filho de que governo; fruto de que sacanagem é cada bilionário, cada mega empresário. No meio ambiente econômico em que vivemos, quem cumpre as regras civilizadas perde a condição de competir (interna e externamente). Perde a “luta pelo poder”. Perde o seu lugar ao sol.



Se o sucesso passa a ser uma confissão de culpa, instala-se a subversão geral. E, ironicamente, instala-se porque, ainda que com a maioria dançando conforme à música para sobreviver e “dar certo”, a noção de certo e errado, o senso de Justiça inato na nossa espécie, subsiste, como prova a sua própria manifestação, Helena.

Pois é em cima desses bons sentimentos que cinicamente atuam os fariseus da política, os mesmos de onde emana toda essa subversão. Se o sucesso é uma confissão de culpa, basta acionar essa tecla quando o desespero provocado por esse sistema de exploração passa da borda do suportável. Eles próprios convocam, então, o apedrejamento da “zelite” e lá vêm as expropriações e os atos de “justiça social” (contra o “judeu” da vez, a imprensa, o Judiciário ou o que quer que esteja incomodando mais no momento…), com os quais os reis dos ladrões posam de heróis e garantem mais um século de poder devolvendo ao povo miserável migalhas do que lhe vêm roubando desde sempre.



Do Mestre de Avis, lá no nascimento de Portugal, ao Lula aqui da sua antiga colônia tem sido assim, sem tirar nem por. E o que tem garantido a perenização dessa arapuca é o apagamento sistemático da memória do povo que se obtém cultivando zelosamente a ignorância, esta que hoje é oficialmente louvada como uma espécie de benção remissora no país de Lula.

O estudo da História é que é a psicanálise das sociedades, Helena. Só quem sabe como e porque se tornou o que é pode recusar voltar aos caminhos para o abismo tantas vezes percorridos antes, escolher novos e, assim, mudar o que virá a ser no futuro.

A reforma, portanto, só terá efeito se começar por cima. A boa regra só se imporá, país abaixo, se for infalivelmente imposta ao primeiro da fila.



E aí, a receita básica é conhecida:
. todos são iguais perante a lei e não haverá foros nem prisões especiais;
. nenhum poder e nenhum dinheiro que não seja fruto do esforço e do mérito;
. ao crime deve corresponder infalivelmente o castigo…

Voltamos ao ponto de partida, Helena. Mas agora com os olhos fixos “lá”. “Eles” é que têm de se ver no espelho desse povo que disputa tão limpa e lindamente na avenida, e não o povo seguir se deformando para caber no espelho distorcido deles.

Entender isso claramente, afirmar sistematicamente essa visão, é tomar consciência de quem é que tem “a força“; é começar a agir.



16 de fev. de 2013

Abram alas para o agro

por Kátia Abreu



O agronegócio é o responsável, há anos, pelos sucessivos superavit da balança comercial

Quando a Unidos de Vila Isabel adentrou o Sambódromo, às 5h40 da terça-feira de Carnaval, já o personagem homenageado em seu samba-enredo, o homem do campo, estava em plena labuta. Não pôde assistir ao vivo a homenagem. Acorda-se cedo no meio rural. Ao alvorecer, todos já estão a postos. E mesmo feriados como o do Carnaval não interrompem a produção, que põe na mesa do brasileiro a melhor e mais barata comida do mundo.

O belíssimo enredo "A Caminho da Roça", com que a Vila Isabel venceu o desfile carioca, admirado em todo o mundo, fez, enfim, jus a um segmento da sociedade brasileira historicamente negligenciado (e vilipendiado) por parcela influente das classes cultas, em nome de interesses político-ideológicos. A luta pela estatização do campo, projeto antigo da esquerda revolucionária, tenta atribuir ao produtor rural a responsabilidade pelas mazelas sociais do país, quando a realidade é justo o oposto.

Nenhum outro segmento contribui tanto para o desenvolvimento econômico e social do país. Senão, vejamos: é o agronegócio o responsável, há anos, pelos sucessivos superavit da balança comercial brasileira e responde também por 30% dos empregos formais do país. Nosso superavit anual nas exportações é de US$ 79,4 bilhões; o superavit final do país é de US$ 19,4 bilhões, o que significa que o agro financia os US$ 60 bilhões de deficit dos outros setores. Dá cobertura, por exemplo, aos US$ 22,2 bilhões que os turistas brasileiros gastam lá fora, enquanto os estrangeiros deixam aqui apenas US$ 6,6 bilhões.

Mais: o agro brasileiro é hoje modelo em todo o mundo. Estudo sobre produtividade agrícola em 156 países, publicado pelo Ministério da Agricultura dos Estados Unidos (USDA), constata que o crescimento desse setor entre nós foi, na década de 2000, de 4,04%, enquanto a taxa mundial no mesmo período foi de apenas 1,84%. Deve-se isso ao aporte tecnológico e à dedicação ao trabalho -dedicação exaltada pelo enredo da Vila Isabel: "Semear o grão.../saciar a fome com a plantação/é a lida.../arar e cultivar o solo/ver brotar o velho sonho/alimentar o mundo/bem viver/a emoção vai florescer", diz um trecho do samba, cantado pelos milhares de foliões que lotaram as arquibancadas do Sambódromo.

Não obstante, ao setor se quer imputar a herança colonial-escravagista do país, rotulando-o como atrasado, quando, inversamente, é o que mais incorpora tecnologia de produção e mais investe no aprimoramento de sua mão de obra. Acusam-no de predador ambiental, num país que preserva nada menos que 61% de seu território com cobertura vegetal nativa e utiliza menos de um terço (27,7%) para a produção de alimentos. Nenhum outro país exibe números sequer aproximados.

A Amazônia, foco da cobiça internacional -e obsessão dos ambientalistas a serviço de ONGs estrangeiras-, teve reduzidos, de 2004 para cá, em nada menos que 84% os desmatamentos.Ninguém preserva -e conhece- mais a natureza e o ambiente que quem deles depende para sobreviver: o homem do campo. Daí o absurdo das acusações que lhe são assacadas.

Na linguagem do samba, pode-se dizer que o agro tem sido a comissão de frente da economia brasileira. Não atravessa o ritmo e garante há anos o desfile da vitória do desenvolvimento do país.
 
É, pois, inadmissível que não tenhamos ainda um sólido sistema de seguro agrícola e que se expulsem produtores rurais de suas terras em nome de uma antropologia ideologizada e ultrapassada, que conspira contra o bem-estar social. E ainda: que tenhamos os portos mais ineficientes do mundo, graças a uma minoria que defende interesses particulares em prejuízo do país.

A homenagem da Vila Isabel representa um importante -e justíssimo- reconhecimento do Brasil urbano e popular a um segmento que, como nenhum outro, o tem servido com competência e dedicação. E que, mesmo enfrentando forças obscurantistas e poderosas, não deixará de fazê-lo jamais. Aos que jogam contra o país, nosso lema é: abram alas!

Aquidauana


O vídeo institucional do município de Aquidauana (Mato Grosso do Sul) foi escolhido, por um júri internacional, como um dos melhores filmes de turismo na categoria Turismo de Ecologia e Natureza. É de ver em tela cheia.

Captado por JRB Martins

15 de fev. de 2013

Puma Punku

Reportagem do History Channel, dublada em português. O tom, à primeira vista, vai pro lado do espalhafatoso, mas dá para dar um desconto: o fenômeno é mesmo intrigante, fantástico, incompreensível, e os locutores ficaram mesmo muito impressionados, entusiasmando-se e aventando hipóteses incomuns.
Em tempo: pesquisei a dureza do diorito no Google mas as respostas não foram muito precisas; o que é certo é que sua densidade é superior à do granito devendo portanto, de fato, ser mais duro do que este.

12 de fev. de 2013

As nações não têm interesses

por Carlos Alberto Montaner, para o jornal paraguaio ABC Color

Jeane Kirkpatrick, a notável ensaísta e diplomata americana da era Reagan, costumava dizer, com alguma tristeza, que ela, como acadêmica, tinha sido treinada para buscar a verdade, mas, como diplomata, às vezes sua detestável função era ocultá-la.

O professor panamenho Guillermo (Willy) Cochez, proeminente democrata-cristão, ex-embaixador de seu país à OEA no atual governo de Ricardo Martinelli, enfrentou um dilema semelhante aos que mortificavam Kirkpatrick, e optou por dizer a verdade e obedecer à sua consciência, em vez de mentir ou esconder-se atrás de uma montanha de eufemismos. Essa postura lhe custou o emprego, mas ele ganhou o respeito de muitas pessoas.

O incidente ocorreu em 16 de janeiro na sede da OEA em Washington. Naqueles dias, se avaliava o caso insólito do presidente reeleito dos venezuelanos, Hugo Chávez, internado em um hospital de Havana, supostamente morrendo ou em estado muito grave, circunstância que deveria resolver-se de acordo com a Constituição, cujo texto estabelecia claramente que, ante fatos dessa natureza, deveriam realizar-se eleições em trinta dias, convocada pelo presidente da Câmara.

Ao Embaixador Cochez, que também é professor na Faculdade de Direito de uma universidade panamenha, pareceu intolerável o governo venezuelano violar a lei, ignorar a ausência de Chávez, e transmitir ilegalmente a autoridade ao vice-presidente Nicolas Maduro, tudo isso com a aprovação da OEA e de seu cantinflesco secretário-geral, José Miguel Insulza. Anteriormente, o mesmo organismo julgou com muita severidade as destituições dos presidentes Manuel Zelaya, de Honduras, e Fernando Lugo, do Paraguai, embora ambos os processos tenham se realizado dentro da lei em vigor nesses países.

Para Cochez, que tinha uma longa história pessoal de luta contra a narcotirania panamenha de Manuel Noriega, e de solidariedade com outros países que tentavam estabelecer a democracia, como no El Salvador de Napoleão Duarte na década de oitenta, seu amigo e compadre social-cristão, esta era uma oportunidade de dizer a verdade e ajudar os venezuelanos livres a denunciar o que realmente estava ocorrendo na Venezuela.

Em última análise, a Carta Democrática, assinada por todos os países membros da OEA, dava razão a Cochez. A Venezuela não era uma democracia verdadeira, mas uma variante de despotismo, sancionada nas urnas, onde não se respeitavam os direitos das minorias e não existiam poderes independentes. O Caudilho havia fagocitado as funções do Judiciário, enquanto o Parlamento, com uma maioria imposta por regras eleitorais abusivas, era apenas uma caixa de ressonância da voz do dono.

Ante este episódio, que mostra a consistência moral de Guillermo Cochez e a linguagem dupla e a covardia de muitas chancelarias, vale a pena recordar um item que é muitas vezes esquecido: é falso que as nações devem escolher entre os seus interesses e seus princípios.

Na realidade, as nações somente podem ter princípios. Nações são abstrações. São tribos unidas por laços espirituais intangíveis. São os indivíduos, as empresas, os partidos, que têm interesses.

O Senhor Chávez tem corrompido numerosos grupos e líderes políticos com suas maletas cheias de petrodólares, como as que se descobriram na Argentina; e tem extirpado a decência de comportamento de países pequenos que se beneficiam de envios de petróleo em condições favoráveis, como ocorre em quase todo o Caribe, mas essa conduta imoral tem um nome no direito penal: "submissão voluntária à extorsão".

Todos esses políticos e governantes latino-americanos que olham para outro lado quando o chavismo atropela os venezuelanos, fecha ou assedia os meios de comunicação, ajuda as narcoguerrilhas comunistas colombianas, conspira com a ditadura teocrática iraniana para desenvolver armas nucleares, ou contribui com recursos para o triunfo de seus cúmplices na construção desta grande jaula chamada socialismo do século XXI, não estão defendendo os interesses de seus países: estão pisoteando os princípios em que se assentam suas nações. Estão apodrecendo as bases morais das sociedades que dizem representar. Isso, simplesmente, é muito grave.

Obrigado, Embaixador Cochez, por se opor a essa imundície.

9 de fev. de 2013

A mágica dos batedores de carteira acabou. A farsa mostra os dentes


por Reynaldo Rocha

Havia uma herança, qualificada de maldita pelos asseclas dos corruptos que transformaram um país real em uma ilusão de circo.
Esta herança permitiu que embriagados governantes e mentirosas coléricas assumissem o comando do Brasil, E fossem mitificados. Como se tivessem participado de construções que sequer os admitiriam como auxiliares de pedreiro.
Como vulgares batedores de carteira, proclamaram-se donos do que roubaram. E tentaram mais: roubar a história.
Distribuiram cargos a incompetentes. Bastava que fossem fiéis ao comando da quadrilha. Ressuscitaram cadáveres que sepultamos em cova rasa. Uniram-se à podridão, a tal ponto que não conseguimos mais distinguir a lama do esgoto. São uma coisa só.
É caso de festejar o que está por vir? O retorno da inflação, o perverso imposto que sufoca a todos?
Não creio. Não quero. Não desejo.
Mas parece-me inevitável. Nada do que se disse, expôs e cobrou foi levado em conta. Os ignorantes orgulhosos preferiram debitar as críticas na conta de sempre: só discordam do governo iluminado os que sempre são do contra.
Reclamar do inchaço da máquina administrativa? Da ineficiência derivada da falta de planejamento? Da corrupção que multiplica por dois o valor de qualquer obra? Dos companheiros que nunca souberam administrar sequer uma loja de R$ 1,99? Da ingerência absurda do Estado na economia, só chamando a odiada (por eles) iniciativa privada quando não há mais conserto nem recurso?
Valeu trocar “privatização” por “desestatização”, como agora se lê?
A fórmula de FHC não era poção mágica. Era caminho, direção. Eles nunca entenderam isto. Os ignorantes que nada sabem fingem saber de tudo.
A Petrobras arrasada por Gabrielli e Lula. O BNDES reduzido a agência de socorro para amigos do governo. Fundos de pensões estatais aplicam mal e porcamente o dinheiro dos associados.
E assim se cria uma ilusão. Guido Mantega, como Cristina Kirchner, já é uma piada internacional. A credibilidade que o Brasil conseguiu ─ a duras penas ─ no governo FHC e foi mantida por Henrique Meireles (tucano, nunca aceito pelos geniais economistas do PT!) está perdida.
A nós resta a certeza de que virão dias difíceis. A mágica acabou. A farsa mostra os dentes.
Restará uma herança. Esta sim, maldita.
Na era da mediocridade, perdemos o que ganhamos.
A dignidade, a ética, a supremacia da verdade, o respeito ao estado de direito e à diversidade de ideias, isso já estava perdido.
Perderemos a última construção de governos anteriores.
Eles não se importam. Nunca se importaram com nada que não fosse elogio ou histérica idolatria.
O que vai sobrar?
Sem oposição, sem crítica e sem quem nos represente, resta observar o covil dos lulopetistas destruindo com as patas sujas o que nunca conseguiram entender.
E que nós, mais uma vez, teremos que reconstruir.
Resta saber com quem.

Santa Maria - A tragédia e seus sócios


por Guilherme Fiuza

(...)
A Kiss era um coquetel de riscos – evidentes – que não foram evitados for uma soma de omissões. Mas tragédia com muitos culpados dificulta o espetáculo do linchamento. Por que o músico da banda foi preso? Porque o show tem que continuar.
E hoje não pode haver show grandioso no Brasil sem a presença do governo popular. Num passe de mágica, poucas horas depois do incêndio, quem estava em todas as manchetes? “Dilma cancela”, “Dilma volta”, “Dilma chora”. E Dilma faz comício para milhares de prefeitos, ordenando-lhes que a tragédia de Santa Maria não se repita. Como é fácil ser presidente.
Já que seu discurso nunca quer dizer nada, o jeito é entendê-la por gestos. Aí tudo fica claro: escondido na aba da presidente, por exemplo, há um ministro com alvará vencido. Após faturar R$ 2 milhões com consultorias fantasmas, Fernando Pimentel foi interditado pela Comissão de Ética da Presidência. O que fez Dilma, a sensível? Interditou a Comissão de Ética – e manteve o ministro pirotécnico no cargo.
Este é apenas um dos muitos exemplos de legalidade que a líder da nação oferece a bombeiros, prefeituras e donos de boate. Sem falar no risco energético que o país corre para sustentar o truque da bondade tarifária.
Assim o governo popular estimula o cumprimento das regras: durante anos, a presidente e seu padrinho mantiveram como sua representante oficial Rosemary Noronha, que atuava sobre as agências reguladoras – as que criam as regras – como negociante de cargos e propinas. As ações dos companheiros de Dilma que não deixam dúvida: driblar a lei dá lucro.
Os donos de boates piratas em todo o Brasil têm, portanto, em quem se espelhar. Por esse ângulo, até dá para entender que Dilma seja a estrela da tragédia.