"Deve-se
a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior
número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele
sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gra...vata, passou a
existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. Houve,
em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas. Outrora, os melhores pensavam
pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação
realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o
extermina".
26 de out. de 2012
24 de out. de 2012
Levantando o tapete e mostrando o lixo
por REYNALDO ROCHA
“Já fui julgado pelas urnas. A vitória de Dilma Rousseff foi um julgamento extraordinário”. (Luís Ignácio).
Para quem confunde ministro do Supremo com supremo ministro da Casa Vil, essa confusão conceitual não espanta.
Aliás, na Era da Mediocridade nada mais deveria nos espantar. Exceto não termos previsto isto antes.
Mas o talento ficcional sempre será menor que a estupidez cavalar de quem produz asneiras como quem respira. Ares poluídos.
Assim deixamos de antever o que só o teatro do absurdo pode contemplar.
O que se nota – sem ficção – é que Lula está em campanha para 2014. Lula é o candidato escolhido por Lula.
É fácil saber o que pretende. Uma “absolvição” (como a imaginada por Fernando Collor quando eleito senador; estão cada dia mais parecidos) que o leve a completar o serviço inconcluso.
O controle social da mídia é um exemplo. Dilma refugou o papel de mãe desse absurdo que anunciaria ao mundo inteiro a chegada da ditadura clepto-sindicalista-amoral.
Notem que o PT ─ que sempre considerou Dilma mera passageira de ocasião, sem influência no partido ─ já avisou: após as eleições voltará a colocar o tema em debate! Ou melhor, em uníssonos zurros de assembléias partidárias.
Alguma vez (uma única que seja!) os valorosos e destemidos dirigentes do PT agiram sem o consentimento de Lula? São hienas obedientes.
Obviamente – e não é ficção! –, Lula continua a ordenar que a censura seja implantada.
Qual será a reforma do Poder Judiciário proposta pelo imperador de hospício? A demissão ad nutum dos ministros? No popular, na tora? Ou a escolha dos juízes por um Conselho Popular e Democrático que reuniria os advogados a serviço de movimentos populares, sindicatos, ONGs e, claro, do governo?
Lula admitiu que foi condenado. Existem certezas materiais e provas testemunhais, além do julgamento do STF. Seriam somente 43 milhões de brasileiros a condená-lo?
Lula é, acima de tudo, covarde. A palavra é pesada, cruel. Mas verdadeira.
Vendeu a própria honra aos collors e sarneys da vida. Aliou-se a quem prometia erradicar. Manteve a MESMA política econômica, sem jamais admitir tal evidência. Privatizou recorrendo a truques semânticos para não ter de explicar a súbita mudança. Escondeu-se atrás de Dirceus e Genoínos. Usou Delúbio como um novo menino do MEP. Pediu desculpas olhando para o teto. Ao declarar-se traído, colocou na janela o traseiro dos outros.
E agora se esconde na idolatria que deixou de ser política para ser farsesca.
Um covarde em tamanho gigante. Vale-se de terceiros para fazer o que a covardia determina. Elege adversários e não os enfrenta só. Precisa da máquina, do partido ou do governo. Para ele, é a mesma coisa.
Prefere dar entrevistas
A promessa de conceder entrevistas depois de deixar a Presidência foi só mais um gesto covarde. Por que não recebeu o Augusto Nunes? Por que não debateu com FHC?
Covardia em grau extremo, vizinha do pânico histérico.
Assim, de declaração em declaração, vai-se montando o mosaico do verdadeiro fujão.
Que agora sabemos, sabe-se criminoso. E confessa.
Nem era necessário. Nós sabíamos. Sempre soubemos.
23 de out. de 2012
A condenação do PT
por Marco Antônio
Villa
(...)
O único projeto da aristocracia petista - conservadora, oportunista e
reacionária - é de se perpetuar no poder. Para isso precisa contar com uma
sociedade civil amorfa, invertebrada. Não é acidental que passaram a falar em
controle social da imprensa e... do Judiciário. Sabem que a imprensa e o
Judiciário acabaram se tornando, mesmo sem o querer, nos maiores obstáculos à
ditadura de novo tipo que almejam criar, dada ausência de uma oposição
político-partidária. A estratégia petista conta com o apoio do que há de pior
no Brasil. É uma associação entre políticos corruptos, empresários
inescrupulosos e oportunistas de todos os tipos. O que os une é o desejo de
saquear o Estado. O PT acabou virando o instrumento de uma burguesia
predatória, que sobrevive graças às benesses do Estado. De uma burguesia
corrupta que, no fundo, odeia o capitalismo e a concorrência. E que encontrou
no partido - depois de um século de desencontros, namorando os militares e
setores políticos ultraconservadores - o melhor instrumento para a manutenção e
expansão dos seus interesses. Não deram nenhum passo atrás na defesa dos seus
interesses de classe. Ficaram onde sempre estiveram. Quem se movimentou em
direção a eles foi o PT. Vivemos uma quadra muito difícil. Remar contra a
corrente não é tarefa das mais fáceis. As hordas governistas estão sempre
prontas para calar seus adversários. Mas as decisões do STF dão um alento, uma
esperança, de que é possível imaginar uma república em que os valores
predominantes não sejam o da malandragem e da corrupção, onde o desrespeito à
coisa pública é uma espécie de lema governamental e a mala recheada de dinheiro
roubado do Erário tenha se transformado em símbolo nacional.
19 de out. de 2012
O recorrente apelo do messianismo
Não
adianta.
Do alto de uma montanha de 2,5 milhões de cadáveres, um quinto da então
população do Camboja, o moscovita Israel Shamir resolve agora excretar
um artigo intitulado Pol Pot Revisited, do qual eu e o Google traduzimos os
trechos abaixo:
(...) Surpreendentemente,
os cambojanos não têm más recordações desse período. Isto é uma descoberta completamente
surpreendente para um visitante freqüente. Eu não vim para reconstruir a
"verdade", qualquer que ela seja, mas sim para descobrir o que é a memória
coletiva dos cambojanos, como eles percebem os eventos do final do século 20, que
narrativa foi filtrada pelo passar do tempo. A onipotente máquina de versões do
Ocidente tem incorporado em nossa consciência a imagem de um sangrento Khmer
Vermelho comunista canibalizando seu próprio povo em campos de extermínio e
governado por um Pol Pot demencial, paradigma do déspota cruel.
O Pol Pot que os
cambojanos lembram não era um tirano, mas um grande patriota e nacionalista, um
amante da cultura nativa e da maneira natural de viver. Ele foi criado nos
círculos reais de um palácio, sua tia era uma concubina do rei anterior. Estudou
em Paris, mas em vez de ganhar dinheiro e investir numa carreira, voltou para
casa e passou alguns anos morando com tribos da floresta para aprender com os
camponeses. Ele sentiu compaixão pelas pessoas comuns das aldeias que eram explorados
diariamente pelo povo da cidade, os parasitas compradores. Ele construiu um
exército para defender o campo a partir desses ladrões de força de trabalho. Pol
Pot, um homem monacal de necessidades simples, não buscava a fama, riqueza ou poder
para si mesmo. Ele tinha uma grande ambição: terminar com o falido capitalismo colonial
no Camboja, o retorno às tradições do campo, e de lá, construir um novo país a
partir do zero. (...)
Sua visão era
muito diferente da soviética. Os soviéticos construíram sua indústria por
hemorragias do campesinato; Pol Pot queria reconstruir o campo primeiro, e só
depois construir indústria para atender às necessidades dos camponeses. Ele considerava
os moradores da cidade com desprezo, eles não faziam nada de útil, em sua
opinião. Muitos deles estavam ligados a agiotas, uma característica distintiva
do Camboja pós-colonial Camboja, outros ajudavam as empresas estrangeiras a roubar
às pessoas a sua riqueza. Sendo fortemente nacionalista, Pol Pot estava
desconfiado das minorias vietnamita e chinesa. Mas o que ele mais odiava era a cobiça,
a ganância, o desejo de possuir coisas. São Francisco e Leo Tolstoy o teriam compreendido.
(...)
Falamos muito
sobre os males cometidos por regimes futuristas, e muito pouco sobre os males dos
governantes gananciosos. Não é frequente nos lembrarmos da Bengala famélica, do
holocausto de Hiroshima, da tragédia do Vietnã, ou até mesmo de Sabra e Shatila.
A introdução do capitalismo na Rússia matou mais pessoas do que a introdução do
socialismo, mas quem o sabe?
Agora podemos cautelosamente
reavaliar as tentativas corajosas para chegar ao socialismo em vários países. Eles
foram feitas sob codições severas e adversas, sob a ameaça de intervenção, face
a uma propaganda hostil. Mas vamos lembrar: se o socialismo fracassou, o mesmo
se deu com o capitalismo. Se o comunismo foi acompanhado pela perda de vidas, assim
foi e é o capitalismo. Mas com o capitalismo, não temos um futuro que vale a
pena, enquanto o socialismo ainda oferece esperança para nós e nossos filhos.
15 de out. de 2012
Mensalão: STF já condenou corruptos, faça sua parte
se derem sumiço no vídeo acima, veja-o em http://youtu.be/srjrHFm57qM
Os com-moral
por Mary Zaidan
Derrotado no primeiro turno por Paulo Maluf, por 32,2% contra 22,9%, e com apenas 70 mil votos de frente sobre a terceira colocada Marta Suplicy, em 1998, Mario Covas virou o jogo e se reelegeu a partir de um mote único: moral. Conseguiu em pouco mais de 20 dias mostrar que os fins não justificam os meios, que o “rouba, mas faz” não é bordão para eleitor algum se orgulhar. Dividiu a eleição em os com e os sem-moral. A vitória de Covas desmente com fatos – algo que petistas não gostam muito – a declaração do ministro Gilberto Carvalho de que nunca se deu bem quem aposta no uso de temas morais. Há 14 anos os tempos eram outros. Ainda que a contragosto de José Dirceu – que convocara a militância para derrotar Covas “nas urnas e nas ruas” – o governador recebeu o apoio de Marta e do PT, em nome de manter São Paulo longe da roubalheira. Hoje, o PT de Lula posa sorridente nos jardins da mansão de Maluf para receber o apoio de quem Marta taxou como nefasto. Alia-se ao que há de mais retrógado na política - sarneys, collors e renans -, e ainda tem o desplante de colocar o conservadorismo na conta dos adversários. Chama a Suprema Corte do país de tribunal de exceção. Oito dos 10 ministros do STF foram indicados por Lula e Dilma. E, certamente, o PT considera ingratidão que seis deles tenham acatado a denúncia de Roberto Gurgel, procurador-geral também nomeado por Lula e reconduzido por Dilma. Pior. O PT reedita, de um jeito moderninho e com ares de nobreza, o jargão eternizado para Adhemar de Barros e plagiado para Maluf. “A população tem sabedoria para entender que o que vale é a prática de um projeto que está mudando o Brasil”, disse Carvalho ao explicar por que “não é inteligente” usar o mensalão na campanha eleitoral. Expõe, sem constrangimento, o raciocínio que norteou a voracidade com que o partido abocanhou o Estado. Os crimes não têm a menor importância. Foram cometidos em nome de um projeto, em nome do que o PT considera ser melhor para o povo. Imoral? E daí? Safo, o ministro não quer é ver campanhas a mostrar os responsáveis por corrupção, peculato, uso de dinheiro público para comprar parlamentares, desrespeitando o eleitor. Assim como já vem fazendo ao demonizar as transmissões ao vivo do julgamento, ao desacatar o STF e culpar a imprensa pelas condenações de seus ícones, o PT fará de tudo para o eleitor ignorar a gravidade dos atos de seu governo. Quer manter o tema distante do povo. Apostam na ignorância. Um trunfo que deixaria qualquer um envergonhado. Mas nunca o PT, que já mostrou que faz qualquer coisa para vencer. Como diz Carvalho, vale tudo.
Derrotado no primeiro turno por Paulo Maluf, por 32,2% contra 22,9%, e com apenas 70 mil votos de frente sobre a terceira colocada Marta Suplicy, em 1998, Mario Covas virou o jogo e se reelegeu a partir de um mote único: moral. Conseguiu em pouco mais de 20 dias mostrar que os fins não justificam os meios, que o “rouba, mas faz” não é bordão para eleitor algum se orgulhar. Dividiu a eleição em os com e os sem-moral. A vitória de Covas desmente com fatos – algo que petistas não gostam muito – a declaração do ministro Gilberto Carvalho de que nunca se deu bem quem aposta no uso de temas morais. Há 14 anos os tempos eram outros. Ainda que a contragosto de José Dirceu – que convocara a militância para derrotar Covas “nas urnas e nas ruas” – o governador recebeu o apoio de Marta e do PT, em nome de manter São Paulo longe da roubalheira. Hoje, o PT de Lula posa sorridente nos jardins da mansão de Maluf para receber o apoio de quem Marta taxou como nefasto. Alia-se ao que há de mais retrógado na política - sarneys, collors e renans -, e ainda tem o desplante de colocar o conservadorismo na conta dos adversários. Chama a Suprema Corte do país de tribunal de exceção. Oito dos 10 ministros do STF foram indicados por Lula e Dilma. E, certamente, o PT considera ingratidão que seis deles tenham acatado a denúncia de Roberto Gurgel, procurador-geral também nomeado por Lula e reconduzido por Dilma. Pior. O PT reedita, de um jeito moderninho e com ares de nobreza, o jargão eternizado para Adhemar de Barros e plagiado para Maluf. “A população tem sabedoria para entender que o que vale é a prática de um projeto que está mudando o Brasil”, disse Carvalho ao explicar por que “não é inteligente” usar o mensalão na campanha eleitoral. Expõe, sem constrangimento, o raciocínio que norteou a voracidade com que o partido abocanhou o Estado. Os crimes não têm a menor importância. Foram cometidos em nome de um projeto, em nome do que o PT considera ser melhor para o povo. Imoral? E daí? Safo, o ministro não quer é ver campanhas a mostrar os responsáveis por corrupção, peculato, uso de dinheiro público para comprar parlamentares, desrespeitando o eleitor. Assim como já vem fazendo ao demonizar as transmissões ao vivo do julgamento, ao desacatar o STF e culpar a imprensa pelas condenações de seus ícones, o PT fará de tudo para o eleitor ignorar a gravidade dos atos de seu governo. Quer manter o tema distante do povo. Apostam na ignorância. Um trunfo que deixaria qualquer um envergonhado. Mas nunca o PT, que já mostrou que faz qualquer coisa para vencer. Como diz Carvalho, vale tudo.
14 de out. de 2012
Rumpelstiltskin
por Yoanni Sanchez, presa em Cuba
Ainda
levo na pele e bem dentro das fossas nasais o suor daquelas três mulheres que
me enfiaram num carro da polícia. Grandes, corpulentas, implacáveis, levaram-me
até aquele quarto onde não havia janelas e o ventilador desfeito apenas jogava
frescor até elas. Uma me olhava com especial ironia. Na melhor hipótese meu
rosto lhe recordava alguém do passado: uma adversária na escola, uma mãe
despótica ou uma amante perdida. Não sei. O que lembro é que, na tarde de 5 de
outubro, seu olhar queria me destruir. Foi ela que apalpou sob minha saia com
grande prazer, enquanto outras duas uniformizadas me agarravam para cumprirem a
“exigência”. Mais do que buscar algum objeto escondido, essa busca perseguia o
objetivo de me deixar com uma sensação de violação, de impotência e de estupro.
A
cada seis horas trocavam minhas guardiãs. No turno da meia noite mostravam-se
menos rígidas, porém eu me encerrei num mutismo e nunca respondi as suas
perguntas. Fugi de mim mesma. Optei por dizer a mim mesma: “tiraram-me tudo,
até o grampo de cabelo, porém – revistadores ridículos – não puderam tomar meu
mundo interior”. Desse modo que decidi me refugiar, durante as longas horas de
uma detenção ilegal, no único que possuía: minhas lembranças. O aposento queria
parecer limpo e ordenado, porém cada coisa tinha sua porção de sujeira ou
ruptura. O chão de placas de granito claro estava coberto por uma boa dose de
limo acumulado. Fiquei olhando as figuras formadas pelas pedrinhas fundidas em cada
azulejo e nas manchas de sujeira.
Lá
surgia o magro semblante de Quixote, enquanto em cada canto consegui ver o
frágil perfil do Bobo de Abela. Uns olhos oblíquos formados pela argamassa e as
pedrinhas se pareciam, incrivelmente, aos da protagonista do filme
Avatar. Eu ria e minhas vigilantes constantes começavam a acreditar que a
minha negativa de provar alimentos ou água estava literalmente fritando o
cérebro. Observei no granito irregular o Corcunda de Notre Dame e a figura
esbelta de Gandalf, com báculo e tudo. Porém sobre todas aquelas formas que
brotavam de tão tosco pavimento havia uma – mais intensa – que parecia brincar
e se rir frente aos meus olhos. Talvez fosse o efeito da sede ou fome, a
verdade é que não sei. Um anão de barba comprida e olhar cínico gracejava de
maneira astuciosa.
Era
Rumpelstiltskin, o protagonista de um conto infantil onde a rainha é obrigada a
adivinhar seu nome complicado, pois do contrário deveria entregar ao anão
despótico sua mais apreciada posse: seu próprio filho. O que aquele personagem
fazia no meio da minha detenção temporária? Por que o via por cima de tantas
outras referências visuais que acumulei na minha vida? Intuí a resposta
imediatamente. “És Rumpelstiltskin, disse-lhe em voz alta e as minhas
carcereiras me olharam preocupadas. “És Rumpelstiltskin – repeti – e sei como
te chamas”. “És como as ditaduras que uma vez que alguém começa a chamá-las
pelo seu nome, é como se começasse a destruí-las”.
Faixa de Gaza
(clique na foto para ampliar)
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