Sequência de seis vídeos de entrevistas de Bill Moyers com Joseph Campbell.
A primeira é indispensável, a segunda maravilhosa, a terceira sensacional, a quarta estupenda, a quinta fantástica e para a sexta acabaram os adjetivos.
1 - A Mensagem do Mito
2 - A Saga do Herói
3 - Os Primeiros Contadores de Histórias
4 - Sacrifice & Bliss - To follow your bliss
5 - Amor e a Deusa
6 - Máscara da Eternidade
6 de fev. de 2013
2 de fev. de 2013
Biblioteca do Vaticano na Internet
Já estão disponíveis na Internet os primeiros 256 manuscritos - como a iluminura acima -, de um projeto que pretende tornar acessíveis 80 mil documentos da Biblioteca do Vaticano.
27 de jan. de 2013
Antimagneto: Invisibilidade magnética prática e simples
![]() |
| Um objeto colocado no interior do cilindro, além do próprio cilindro, são magneticamente indetectáveis. |
Cientistas
criaram uma camuflagem magnética extremamente simples, e que foge da linha
tradicional das pesquisas na área, que vinha se baseando exclusivamente nos metamateriais.
O
dispositivo, que fica totalmente invisível a um campo magnético, foi fabricado
com materiais comprados no comércio, o que aponta para aplicações práticas a
curto prazo.
Além dos metamateriais
A
ciência dos dispositivos de camuflagem, ou mantos da invisibilidade nasceu como uma curiosidade
teórica há poucos anos, mas migrou rapidamente para os laboratórios, e vem
atiçando a curiosidade do público e dos cientistas.
No
ano passado, Alvaro Sanchez e seus colegas da Universidade Autônoma de Barcelona
publicaram um artigo no qual demonstravam toda a teoria necessária para construir a camuflagem magnética, ou
antimagneto, como eles chamavam o aparato.
Com
suas equações embaixo do braço, os teóricos espanhóis contataram
experimentalistas da Academia Eslovaca de Ciências, especialistas em medições
muito precisas de campos magnéticos.
Fedor
Gomory e seus colegas demoraram apenas alguns poucos meses para demonstrar o
antimagneto na prática e confirmar as teorias do grupo espanhol.
O
resultado é um desvio inesperado na área, mostrando que os metamateriais não
são essenciais para criar invisibilidades.
Antimagneto
O
manto da invisibilidade magnética, ou camuflagem magnética, consiste de um
cilindro composto de duas camadas concêntricas.
A
camada interna é um material supercondutor, que repele o campo magnético,
enquanto a camada exterior é composta de um material ferromagnético - uma liga
de ferro, níquel e cromo -, que atrai o campo magnético.
A
camada supercondutora do cilindro impede que o campo magnético alcance o
interior da camuflagem, mas distorce as linhas do campo ao seu redor.
A camada
ferromagnética interna produz o efeito oposto: ela atrai as linhas do campo
magnético, compensando a distorção criada pelo supercondutor, mas sem permitir
que o campo magnético entre no interior do cilindro.
A camada
ferromagnética do cilindro atrai as linhas do campo magnético (esquerda),
enquanto a camada supercondutora os repele (direita).
|
O
efeito global é um espaço interno do cilindro sem nenhum campo magnético, e
absolutamente nenhuma distorção no campo magnético externo. Em
outras palavras, não é possível detectar nem o cilindro e nem o objeto que for
colocado em seu interior.
Aplicações médicas
Como
o dispositivo foi fabricado com materiais disponíveis no comércio - o
experimento inteiro custou US$1.300,00 -, e como ele opera em campos magnéticos
relativamente fortes, os cientistas afirmam que ele poderá ser prontamente
usado na prática.
Vale
lembrar que, como usa um supercondutor, o dispositivo precisa de nitrogênio líquido
para funcionar - mas equipamentos de imageamento médico também precisam.
Os
cientistas citam como possibilidade de aplicação prática, por exemplo, um
dispositivo que torne marca-passos e outros implantes médicos invisíveis aos
campos magnéticos, permitindo que pacientes portadores desses implantes possam
usufruir dos exames mais modernos, como a ressonância magnética.
Por
outro lado, é fácil também imaginar aparatos não tão bem intencionados, como um
antimagneto para esconder armas dos detectores magnéticos dos aeroportos. Mas,
além de ainda ser impensável esconder um dispositivo criogênico com as
dimensões necessárias, os aeroportos contam com outros mecanismos de checagem,
como máquinas de raios X.
Cancelar o magnetismo
Os
cientistas estão perfeitamente familiarizados com o processo de
"criar" magnetismo - 99% da energia consumida no mundo usa geradores
baseados no magnetismo, o fenômeno está presente em todos os motores elétricos
e é a base de todo o armazenamento digital de dados.
Mas
cancelar o magnetismo tem-se mostrado um desafio tanto científico
quanto tecnológico.
Esta
nova camuflagem magnética abre o caminho para que isso possa ser feito de
maneira muito flexível, incluindo outras aplicações na tecnologia da informação,
como a blindagem de dados armazenados magneticamente.
Fonte: Inovação Tecnológica
26 de jan. de 2013
A Língua da Poesia
por Ângelo Monteiro
A
breve e límpida apresentação de Fábio de Andrade ao segundo livro de Bernardo
Souto, Teatro de sombras consegue destacar dois elementos implicados em sua
poética: uma língua de sombra a perpassar esse teatro, oculta no silêncio por
trás das palavras, e a distinção fundamental entre esse dizer instantâneo, próprio
da poesia, e um certo minimalismo em moda, de que serve de exemplo o pífio
poema-piada. O poeta não esquece, para isso, o vaticínio da serpente,
nietzschianamente presente no seu retorno à terra, e daí não se negar à sua
lição:
Aprende o voo-flecha do
peixe
e vislumbrarás o eterno.
e vislumbrarás o eterno.
Impelido
pela força de cada canto o poeta não se cansa de "erigir/estátuas/de
vento", mas são essas estátuas, em sua contínua formação, por meio da
palavra, que vão dar sentido ao itinerário perseguido por ele, que não para de
refletir o próprio movimento das coisas em direção à linguagem. Narciso é a
imagem mais constante com que se depara toda busca humana, já que nenhum
buscador deixará de dizer: "Sou estátua/ fitando/ o espelho". Quem de
nós não se encontra permanentemente em luta entre o apelo de Narciso de se
voltar para a própria face, e o desejo de ser por alguém escutado, embora
saibamos que, ao fim de tudo, "nunca/ ninguém/ jamais/será escutado"?
Ou nos consolamos com a descoberta do lado ignorado de nossa face, ou tentamos
em vão ser compreendidos a partir da mensagem da qual nos julgamos fiéis
depositários.
Mas
insistimos em procurar a palavra não apenas enquanto meio de comunicação e,
sim, como via de acesso capaz de nos irmanar com as demais coisas, levando-nos a
outras formas de relação. Por isso nos diz Bernardo Souto:
só agora compreendo
o estranho idioma dos pássaros.
o estranho idioma dos pássaros.
Pois
é justamente esse idioma, que une o voo ao canto, que vai nos permitir a
passagem para além dos limites em que nos estreitamos: é ele que nos fará
chegar à língua da sombra e, por ela, ao estatuto mais íntimo de toda
realidade, àquele estatuto por acaso pressentido por Hans Christian Anderson
quando escreveu: "É da realidade que moldamos as nossas histórias de
imaginação". De igual forma podemos falar da origem de todos os
verdadeiros poemas. E como o canto é inseparável do conto – porque em ambos
habita o mito – será nosso fado sempre esperar algo da poesia, porque só ela,
em suas expressões cada vez mais novas e imprevisíveis, por vir da realidade,
detém o poder de restaurá-la, quando não de salvá-la.
23 de jan. de 2013
Os Seios da Terra
Meu
peito é eterna bondade-semente
da
mãe-natureza, prenhe de doces frutos,
o
sangue corrente nas veias da gente
é
o mesmo que corre nos bichos mais brutos.
Meu
peito é um rio de águas bem claras
que
o homem moderno inda não sujou,
seu
leite é o leito onde as aves mais raras
molham
as belas penas quando faz calor.
Meu
peito sacia a fome de amor
de
paz e justiça dos filhos da terra.
Bicho-homem,
perdido em intensa agonia,
Meu
peito é um bálsamo que cura tua dor.
Queria
que os meninos da rua e da guerra
mamassem
em meu peito a eterna alegria.
22 de jan. de 2013
A substância dos genes
por António Piedade
Olhe para a sua mão.
Cada cromossomo contem os genes onde estão inscritas as informações para a forma da sua mão, assim como para as proteínas fotorreceptoras que estão na sua retina e que permitem que esteja a ler este texto. De resto, os 46 cromossomos contém a grande maioria dos genes que instruem a maquinaria proteica a ser o que somos na nossa relação com o ambiente e com os outros seres que coabitam connosco nesta lágrima de tempo que é a nossa existência.
60 anos depois, o avanço da nanotecnologia e da microscopia eletrônica permitiu, finalmente, “ver” e confirmar a estrutura em dupla hélice para o ADN. Investigadores do Instituto Italiano de Tecnologia liderados por Enzo di Fabrizio publicaram na revista “NanoLetters” as novas imagens por eles obtidas e que o leitor também pode ver a seguir.
O aspecto mais compacto da dupla hélice aqui visto é o esperado para a molécula de ADN desidratada, com uma distância entre cada volta ou passo da hélice (entre as setas) de 2,7 nanômetros (1 nanômetro = um milionésimo de milímetro).
Apesar de não corresponder ao que se espera ser a sua conformação nas condições fisiológicas existentes no interior dos cromossomos no núcleo das células, é preciso recordar que o sal de ADN utilizado por Rosalind Franklin para cristalizar o ADN e que levou à proposta por Watson e Crick da sua estrutura helicoidal, também não se encontrava em condições fisiológicas.
E, contudo, desenvolveu a ciência numa espiral sem precedentes de novos conhecimentos sobre a vida.
Olhe para a sua mão.
Cada uma das células da sua pele contem
informação genética que herdou dos seus pais. Assim como uma ou outra ruga,
escrita na sua pele pelo estilete vida, também essa informação genética foi de
certa forma modelada pela sua interação com os lugares por onde o leitor passou,
os ares que respirou, a comida que ingeriu, as emoções que viveu.
No núcleo de cada uma dessas células (assim como as de todo
o corpo, mas excluindo as células reprodutivas) existem 46 cromossomos agrupados
aos pares: cada um dos 23 que herdou da sua mãe emparelhou, desde a fecundação
que lhe deu origem, com os homólogos 23 que recebeu do seu pai.
Cada cromossomo contem os genes onde estão inscritas as informações para a forma da sua mão, assim como para as proteínas fotorreceptoras que estão na sua retina e que permitem que esteja a ler este texto. De resto, os 46 cromossomos contém a grande maioria dos genes que instruem a maquinaria proteica a ser o que somos na nossa relação com o ambiente e com os outros seres que coabitam connosco nesta lágrima de tempo que é a nossa existência.
Escrevi a grande maioria porque nem todos os genes que nos
permitem a vida estão nos cromossomos dos núcleos celulares. Cada célula
possuiu inúmeras organelas chamadas mitocôndrias, que herdamos por via materna
e que possuem, cada uma, um cromossomo com genes também com informação preciosa
para a nossa vida. Bem preciosa, até porque as mitocôndrias são autênticas
centrais energéticas e metabólicas dentro das células.
Mas voltemos aos cromossomos. Eles são uma complexa
estrutura composta por uma longa molécula de ácido desoxirribonucleico,
vulgarmente designada por ADN, e por diversas proteínas com diversas funções.
Desde os trabalhos de James Watson, Francis Crick, Rosalind Franklin
e Maurice Wilkins, nos primeiros anos da década de cinquenta do século XX - que
culminaram com a resolução da estrutura do ADN - que construímos e
desenvolvemos uma genética e biologia moleculares modernas assentes numa hélice
dupla para a molécula dos genes.
Comemoram-se em 2013 os 60 anos da descoberta dessa
estrutura em dupla hélice para o ADN das nossas vidas. Foram 60 anos de avanços
inigualáveis na compreensão de como a vida se organiza e funciona. Em 1953, a
estrutura foi desvendada a partir da técnica da cristalografia por difração de
raios X.
Cristalografia por difração de raios X de um cristal de um sal de ADN.
O padrão registado na "radiografia" efetuada por Rosalind Franklin de um determinado cristal de ADN é
ainda hoje um ícone, mas a sua interpretação requer conhecimento especializado.
Os nossos olhos não conseguem fazer a transposição entre essa imagem e a da
dupla hélice. Mas o modelo proposto por Watson e Crick foi fundamental para a revolução genética a que assistimos nas últimas seis
décadas.
Esquema para a dupla hélice de ADN
60 anos depois, o avanço da nanotecnologia e da microscopia eletrônica permitiu, finalmente, “ver” e confirmar a estrutura em dupla hélice para o ADN. Investigadores do Instituto Italiano de Tecnologia liderados por Enzo di Fabrizio publicaram na revista “NanoLetters” as novas imagens por eles obtidas e que o leitor também pode ver a seguir.
Microscopia eletrônica de varrimento de uma molécula de ADN. Os passos
sucessivos da hélice estão assinalados pelas setas vermelhas. Créditos
Enzo di Fabrizio.
O aspecto mais compacto da dupla hélice aqui visto é o esperado para a molécula de ADN desidratada, com uma distância entre cada volta ou passo da hélice (entre as setas) de 2,7 nanômetros (1 nanômetro = um milionésimo de milímetro).
Apesar de não corresponder ao que se espera ser a sua conformação nas condições fisiológicas existentes no interior dos cromossomos no núcleo das células, é preciso recordar que o sal de ADN utilizado por Rosalind Franklin para cristalizar o ADN e que levou à proposta por Watson e Crick da sua estrutura helicoidal, também não se encontrava em condições fisiológicas.
E, contudo, desenvolveu a ciência numa espiral sem precedentes de novos conhecimentos sobre a vida.
20 de jan. de 2013
19 de jan. de 2013
Sorria, você está sendo roubado
por Guilherme Fiuza
O “Financial Times” disse que o jeitinho brasileiro chegou ao comando da política econômica. O jornal britânico se referia à solidariedade entre os companheiros Fernando Haddad e Guido Mantega, num arranjo para que a prefeitura de São Paulo retardasse o aumento nas tarifas de ônibus, ajudando o Ministério da Fazenda a disfarçar a subida da inflação.
A expressão usada pelo “Financial Times” é inadequada. Os britânicos não sabem que esse conceito quase simpático de malandragem brasileira está superado. O profissionalismo do governo popular não mais comporta diminutivos.
No Brasil progressista de hoje, os números dançam conforme a música. E a maquiagem das contas públicas já se faz a céu aberto: o império do oprimido perdeu a vergonha.
No fechamento do balanço de 2012, por exemplo, os companheiros da tesouraria acharam por bem separar mais 50 bilhões de reais para gastar. Faz todo o sentido. Este ano as torneiras têm que estar bem abertas, porque ano que vem tem eleição e é preciso irrigar as contas dos aliados em todo esse Brasil grande. A execução do desfalque no orçamento foi um sucesso.
Entre outras mágicas, o governo popular engendrou uma espécie de “lavagem de dívida” para fabricar superávit. Marcos Valério ficaria encabulado.
O Tesouro Nacional fez injeções de recursos em série no BNDES, que por sua vez derramou financiamentos bilionários nas principais estatais, e estas anteciparam sua distribuição de dividendos, que apareceram como crédito na conta de quem? Dele mesmo, o Tesouro Nacional — o único ente capaz de torrar dinheiro e lucrar com isso.
Ao “Financial Times”, seria preciso esclarecer: isso não é jeitinho, é roubo.
A “contabilidade criativa” — patente requerida pelos mesmos autores dos “recursos não contabilizados” que explicavam o mensalão — não é vista como estelionato porque o brasileiro é um amistoso, um magnânimo, deslumbrado com seu final feliz ao eleger presidente uma mulher inventada por um operário. Não fosse isso, era caso de polícia.
A falsidade ideológica nas contas do governo Dilma rouba do cidadão para dar ao governo. Ao esconder dívidas e “esquentar” gastos abusivos, a Fazenda Nacional fabrica créditos inexistentes — que serão pagos pelos consumidores e contribuintes, como em toda desordem fiscal, através de impostos invisíveis. O mais conhecido deles é a inflação.
Em outras palavras: o jeitinho encontrado pelo companheiro-ministro da Fazenda para maquiar a inflação é um antídoto contra o jeitinho por ele mesmo usado para aumentar a gastança pública.
O maior escândalo não é a orgia administrativa que corrói os fundamentos da estabilidade econômica, tão dificilmente alcançada. O grande escândalo é a passividade com que o Brasil assiste a isso, numa boa.
Se distrai com polêmicas sobre “pibinho” ou “pibão”, repercute bravatas presidenciais sopradas por marqueteiros, e não reage ao evidente aumento do custo de vida, aos impostos mais altos do mundo que vêm acompanhados, paradoxalmente, por recordes negativos de investimento público. A bandalheira fiscal é abençoada por um silêncio continental. Nem a ditadura conseguiu esse milagre.
No auge da era da informação, o Brasil nunca foi tão ignorante. Acha que as baixas taxas de desemprego — fruto de um ciclo virtuoso propiciado pela organização macroeconômica — são obra de um governo com “sensibilidade social”.
Justamente o governo que está avacalhando a estabilização, estourando a meta de inflação e matando a galinha dos ovos de ouro. Esse Brasil obtuso acha que as classes C e D ascenderam ao consumo porque o que faltava, em 500 anos de história, era um governo bonzinho para inventar umas bolsas e distribuir dinheiro de graça.
Esse mal-entendido pueril gera uma blindagem política invencível. Os passageiros que assaram no Galeão e no Santos Dumont, no vergonhoso colapso simultâneo de dezembro, são incapazes de relacionar seu calvário ao caso Rosemary — a afilhada de Lula e Dilma que protagonizou o escândalo da Anac, por acaso a agência responsável pela qualidade dos aeroportos.
O governo popular transforma as agências reguladoras em cabides para os companheiros e centrais de negociatas, e o contribuinte sofre com a infraestrutura depenada como se fosse uma catástrofe natural, um efeito do El Niño. Novamente, nem os generais viveram tão imunes à crítica.
Com a longevidade do PT no Planalto, o assalto ao Estado vai se sofisticando. A área econômica, que era indevassável à politicagem, hoje tem a Secretaria do Tesouro devidamente aparelhada — um militante do partido com a chave do cofre. E tome contabilidade criativa.
Definitivamente, o Brasil não aprendeu nada com a lição do mensalão. Os parasitas progressistas estão aí, deitando e rolando (de tão gordos), rumo ao quarto mandato consecutivo.
Não contem para o “Financial Times”, mas a conta vai chegar.
O “Financial Times” disse que o jeitinho brasileiro chegou ao comando da política econômica. O jornal britânico se referia à solidariedade entre os companheiros Fernando Haddad e Guido Mantega, num arranjo para que a prefeitura de São Paulo retardasse o aumento nas tarifas de ônibus, ajudando o Ministério da Fazenda a disfarçar a subida da inflação.
A expressão usada pelo “Financial Times” é inadequada. Os britânicos não sabem que esse conceito quase simpático de malandragem brasileira está superado. O profissionalismo do governo popular não mais comporta diminutivos.
No Brasil progressista de hoje, os números dançam conforme a música. E a maquiagem das contas públicas já se faz a céu aberto: o império do oprimido perdeu a vergonha.
No fechamento do balanço de 2012, por exemplo, os companheiros da tesouraria acharam por bem separar mais 50 bilhões de reais para gastar. Faz todo o sentido. Este ano as torneiras têm que estar bem abertas, porque ano que vem tem eleição e é preciso irrigar as contas dos aliados em todo esse Brasil grande. A execução do desfalque no orçamento foi um sucesso.
Entre outras mágicas, o governo popular engendrou uma espécie de “lavagem de dívida” para fabricar superávit. Marcos Valério ficaria encabulado.
O Tesouro Nacional fez injeções de recursos em série no BNDES, que por sua vez derramou financiamentos bilionários nas principais estatais, e estas anteciparam sua distribuição de dividendos, que apareceram como crédito na conta de quem? Dele mesmo, o Tesouro Nacional — o único ente capaz de torrar dinheiro e lucrar com isso.
Ao “Financial Times”, seria preciso esclarecer: isso não é jeitinho, é roubo.
A “contabilidade criativa” — patente requerida pelos mesmos autores dos “recursos não contabilizados” que explicavam o mensalão — não é vista como estelionato porque o brasileiro é um amistoso, um magnânimo, deslumbrado com seu final feliz ao eleger presidente uma mulher inventada por um operário. Não fosse isso, era caso de polícia.
A falsidade ideológica nas contas do governo Dilma rouba do cidadão para dar ao governo. Ao esconder dívidas e “esquentar” gastos abusivos, a Fazenda Nacional fabrica créditos inexistentes — que serão pagos pelos consumidores e contribuintes, como em toda desordem fiscal, através de impostos invisíveis. O mais conhecido deles é a inflação.
Em outras palavras: o jeitinho encontrado pelo companheiro-ministro da Fazenda para maquiar a inflação é um antídoto contra o jeitinho por ele mesmo usado para aumentar a gastança pública.
O maior escândalo não é a orgia administrativa que corrói os fundamentos da estabilidade econômica, tão dificilmente alcançada. O grande escândalo é a passividade com que o Brasil assiste a isso, numa boa.
Se distrai com polêmicas sobre “pibinho” ou “pibão”, repercute bravatas presidenciais sopradas por marqueteiros, e não reage ao evidente aumento do custo de vida, aos impostos mais altos do mundo que vêm acompanhados, paradoxalmente, por recordes negativos de investimento público. A bandalheira fiscal é abençoada por um silêncio continental. Nem a ditadura conseguiu esse milagre.
No auge da era da informação, o Brasil nunca foi tão ignorante. Acha que as baixas taxas de desemprego — fruto de um ciclo virtuoso propiciado pela organização macroeconômica — são obra de um governo com “sensibilidade social”.
Justamente o governo que está avacalhando a estabilização, estourando a meta de inflação e matando a galinha dos ovos de ouro. Esse Brasil obtuso acha que as classes C e D ascenderam ao consumo porque o que faltava, em 500 anos de história, era um governo bonzinho para inventar umas bolsas e distribuir dinheiro de graça.
Esse mal-entendido pueril gera uma blindagem política invencível. Os passageiros que assaram no Galeão e no Santos Dumont, no vergonhoso colapso simultâneo de dezembro, são incapazes de relacionar seu calvário ao caso Rosemary — a afilhada de Lula e Dilma que protagonizou o escândalo da Anac, por acaso a agência responsável pela qualidade dos aeroportos.
O governo popular transforma as agências reguladoras em cabides para os companheiros e centrais de negociatas, e o contribuinte sofre com a infraestrutura depenada como se fosse uma catástrofe natural, um efeito do El Niño. Novamente, nem os generais viveram tão imunes à crítica.
Com a longevidade do PT no Planalto, o assalto ao Estado vai se sofisticando. A área econômica, que era indevassável à politicagem, hoje tem a Secretaria do Tesouro devidamente aparelhada — um militante do partido com a chave do cofre. E tome contabilidade criativa.
Definitivamente, o Brasil não aprendeu nada com a lição do mensalão. Os parasitas progressistas estão aí, deitando e rolando (de tão gordos), rumo ao quarto mandato consecutivo.
Não contem para o “Financial Times”, mas a conta vai chegar.
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