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2 de nov de 2010

O teste da Dilma virá logo

Post reproduzido do blog "Vespeiro"

Um fato me chamou a atenção nos últimos lances desta campanha. Dilma mostrou muito mais agilidade do que Serra em incorporar ao seu discurso as indicações vindas das ruas. E isso foi decisivo para esvaziar ainda mais o discurso da oposição.

Aproveitando-se da hamletiana aversão de Serra a empunhar qualquer bandeira clara, foram pegando todas as que lhes passavam pela frente. Até a ameaça do autoritarismo eles conseguiram dissolver parcialmente. Na reta final só sobrava mesmo a corrupção pesando indiscutivelmente contra a candidatura do PT.

Em principio, é assim mesmo que a democracia funciona. Não é o povo que deve correr atrás de invenções de lideranças iluminadas; são elas que têm de captar e dar forma institucionalizada às que a voz das ruas lhes sopra.

Saber se essas apropriações da candidata petista refletem virtudes autenticas dela ou só aquele tipo de esperteza barata do seu patrocinador é coisa que logo adiante saberemos. Por enquanto cabe só registrar que aconteceram.

Desde o fatídico comício de Campinas onde Lula, depois de tomar umas e outras, desembestou no palanque contra a liberdade de imprensa e contra a democracia, Dilma já começou a reforçar o seu compromisso com as duas coisas.

Ontem, no discurso da vitória, reafirmou com toda a ênfase possível esse compromisso. Disse e repetiu mais de uma vez que não ha democracia sem liberdade de expressão e de imprensa, que lutou pela primeira com risco da própria vida e que vai zelar pessoalmente pela garantia das duas.

No ultimo debate na Globo também me surpreendeu a convicção com que ela falou nas virtudes da redução dos impostos. Em contraste com a posição de Serra que, na sua irritante obtusidade, não acenou com nenhuma perspectiva de aliviar o garrote no pescoço dos contribuintes mesmo depois de ter denunciado o exagero do aperto em que ele está, Dilma arranjou meios de voltar mais de uma vez ao ponto para falar de sua intenção de repetir, agora de forma sistêmica, a experiência concreta do governo Lula de reduzir temporariamente alguns impostos na crise (automóveis, imóveis, linha branca), o que “fez toda a economia ir para a frente e, no fim das contas, até o governo arrecadar mais”.

Para quem não se lembra, isto é nada mais nada menos que o hino do neoliberalismo.

Na mesma linha de raciocínio, mencionou mais de uma vez a experiência “fordista” de Lula de irrigar as raízes mais secas (pobres) da árvore da sociedade e, assim, promover um efeito virtuoso pela planta acima.

Ontem, no discurso da vitória, Dilma de novo repisou heresias (para o credo petista). Alem de reafirmar os valores da democracia e comprometer-se solenemente com eles, saudou a oposição, pregou a reconciliação nacional, condenou o espírito de facção, reafirmou o compromisso de seu governo com os contratos e a legalidade insistiu na necessidade urgente de cortar gastos públicos para manter a estabilidade da economia e – a maior de todas – pregou a instituição de uma meritocracia no serviço publico.

E desta vez não estava mais à caça de votos. Falava com a eleição ganha apenas para a militância petista que, por sinal, recebeu suas palavras com frieza ainda maior que aquela com que ela as proferiu, sem se afastar um milímetro do texto escrito à sua frente. O único momento em que saiu dessa atitude fria e provocou reações no auditório foi para mencionar, entre lagrimas, a “genialidade” do “nosso guia”, o grande inventor do Brasil. Um interlúdio que, como lembrou um comentarista ontem, nega, de certa forma, as afirmações anteriores, mas que é desculpável para as circunstancias.

Muitos explicadores do Brasil têm dito a quem tenta entendê-lo que “este não é um pais para principiantes”. Não cabe em qualquer figurino estabelecido.

Não ha como negá-lo.

Lula conquistou o Brasil tornado-o mais rico. É verdade que não poderia tê-lo feito sem a corrida planetária pelo ouro das commodities determinada pela China. Mas, pela parte que lhe coube, o fato é que consolidou a oportunidade que lhe passou pela porta abraçando com muito mais decisão que o PSDB algumas das ferramentas típicas do tão execrado consenso de Washington.

Como não está preso a uma trajetória intelectual ou a qualquer tipo de elaboração própria nesse campo, Lula não tem nenhum compromisso de coerência ideológica que o impeça de identificar qualquer expediente que possa servir ao seu propósito básico de agradar para conquistar e manter o poder, este sim, o foco do qual nunca se desvia. Agarra sem titubear o que lhe parecer mais apropriado para o momento sem preocupações com direitos autorais e, muito menos, medo do “quiéquiéisso companheiro” que tanto assusta personagens com auto-estima e posicionamento mais baixos na hierarquia do esquerdismo tupiniquim. Se calhar, diz mesmo que a invenção é sua, ainda que se trate da boa e velha roda.

Esse tipo de desprendimento não é característico do PT. Lula é a exceção tolerada porque se impôs desde sempre como a força carismática sem a qual o partido nunca chegaria ao poder.

Acontece que o problema que ele precisava resolver com mel era conquistar o poder. Agora o problema é manter o poder conquistado.

E se esta eleição provou alguma coisa é que, sem a figura de Lula à frente, o controle absoluto da máquina do Estado é a condição para o PT continuar no poder. O uso desenfreado da maquina do Estado para ganhar eleições não combina nada com as promessas do discurso inaugural de Dilma. E como acabar com o espírito de facção num Estado aparelhado para um projeto de poder? Cortar gastos públicos sem tocar nos “direitos” de um funcionalismo inchado e constituído integralmente de agentes filiados a um partido político? Como cortar despesas com 10 partidos aliados clamando por cargos? Como manter o compromisso com a legalidade de um governo que se instalou desafiando a lei eleitoral e pondo o Judiciário diante da opção “omita-se ou enfrente o risco de obrigar-me a cumpri-la”? E como impor a meritocracia num serviço publico cuja marca ostensiva é a partidarização e o loteamento de cargos entre uma dezena de partidos?

Com a ascensão de Dilma sobe junto com o rebotalho sindical instalado no núcleo central do PT, que mal contem a ânsia de 12 anos risonhos vendendo proteção (contra a aplicação da lei) e influência (para o acesso aos negócios com dinheiro publico), a carcomida máfia dos velhos coronéis do Congresso com a sua legião de interpostos ladrões e apaniguados. E cleptocracias impunes – é fato histórico – não podem conviver com a liberdade de imprensa.

Espero que ela esteja sendo sincera nas suas intenções. Se estiver, vai sofrer muito. Mas, de qualquer maneira, o teste de Dilma não deve demorar. Uma dessas duas coisas – a ladroagem impune ou a liberdade de imprensa – vai ter de acabar.


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