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16 de mai de 2010

A sociedade que se dane

por Mary Zaidan

No afã de abortar a urgência para a votação do projeto Ficha Limpa, aprovado a fórceps na Câmara dos Deputados sete meses e meio depois de lá ingressar por iniciativa popular, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) acabou por despir o governo do qual é líder. Deixou-o nu, expondo o distanciamento absoluto entre os interesses do presidente da República com os maiores índices de aprovação que o país já teve e os do povo.

O dito – “Esse não é um projeto de governo, é da sociedade. O do governo, que vamos trabalhar com prioridade, é o do pré-sal” – não deixa pedra sobre pedra.

Poucas são as frases tão desastradas e ao mesmo tempo tão elucidativas.

De uma só tacada, Jucá desrespeitou os mais de quatro milhões de brasileiros que subscreveram a única tentativa de moralização da atividade política dos últimos tempos e escancarou de vez a total ausência de compromisso do governo Lula com as aspirações da “sociedade” que lhe conferiu votos e poder.

Não é de hoje que projetos de interesse do governo suplantam aqueles que realmente importam ao cotidiano das pessoas. A começar pelo festival de medidas provisórias que tranca a pauta legislativa em favor dos desejos governamentais, a maior parte sem qualquer vinculação com as reais demandas da população. Enquanto isso, propostas sobre combate à violência, desoneração tributária, fiscalização e controle de gastos públicos, só para citar algumas, continuam a acumular teias de aranha e muito pó, sem qualquer chance de serem votadas.

O projeto sobre as reservas de petróleo do pré-sal - riqueza escondida no fundo mais profundo do oceano, ainda sem solução tecnológica ou econômica factível para viabilizar sua exploração pelo menos na próxima década – é um exemplo ímpar. Nada justifica a urgência para votá-lo. Quanto mais em detrimento de uma proposta – essa sim, emergente - que a sociedade reivindica.

Ao que parece o governo Lula corre para tirar proveito já do ouro negro do futuro, pouco se lixando para o alto custo na vida presente de cada um dos brasileiros. Faz ouvidos moucos ao clamor popular, preferindo conferir maior relevância aos ganhos imediatos da regulamentação do pré-sal, entre eles os de criação de uma nova estatal, com mais cargos e nomeações.

A única chance de o governo se redimir seria a de os senadores votarem o projeto Ficha Limpa com celeridade, a tempo de salvar a sua validade para as eleições deste ano. Mas é difícil crer, já que mesmo tendo todas as oportunidades para voltar atrás, Jucá continua irredutível. Como líder, não o faria à revelia, sem endosso e instruções claras do governo.

Prova disso é que dispensou as desculpas elaboradas pelo presidente do Senado, José Sarney - para quem o líder do governo teria emitido uma opinião pessoal -, e nem de longe pensou em engrossar a corrente do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que busca coletar assinaturas para acelerar o trâmite da matéria. Muito menos admite votá-la na próxima quarta-feira, como muitos dizem querer.

Pode até ser que Jucá tenha sido escolhido para o trabalho sujo: o de evitar uma implosão na base governista, parte dela com penduras na Justiça. E, de quebra, agradar à maioria de ambas as casas legislativas, que nem de longe quer se submeter às regras do Ficha Limpa, mesmo depois de amenizadas pela Câmara dos Deputados.

Se assim for, expõe a pior face do governo Lula. Rechaça, por conveniência, uma medida de cunho e apelo popular, que só preconiza um pouco de vergonha na cara aos que pretendem representar os 190 milhões de brasileiros. E o faz sem qualquer constrangimento. Afinal, isso pouco importa para um governo que age e se considera acima do povo.

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