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17 de abr de 2010

Pergunta um amigo;

- Ari, você acha que existe alguma chance de existir uma vida íntegra que seja, no mundo político? Ou será que vamos eternamente nos iludir, e até quando?

Baita pergunta, tchê.
Sem chance de embromação.
Uma vida íntegra, em qualquer mundo, é algo notável. Outro dia, uma amiga judia, perguntada sobre quem, afinal, são os judeus, deu-me ciência de seu principal Mandamento: "Faze de tua vida uma oração de louvor a Deus".

Para as mentalidades arraigadas à concretude é impensável pautar cada ato, cada pensamento e cada sentimento por um vínculo abstrato com o indefinido.
E no entanto, como comentou a Ester, na vida dos judeus o Estudo ocupa uma posição central, e essa motivação assombrosa para estudar, que os conduziu a uma inquestionável proeminência intelectual, esse "fogo sagrado" que os alimenta, de onde mais poderia ter vindo que não de sua decisão de se comprometerem com um poder transcendente?

Esse tipo de vínculo também está sujeito a distorções. E a potência que ele liberou, direcionada para finalidades concretas, provoca estragos... potencializados.
Lembro novamente dos judeus: o primeiro presidente do moderno Israel, Herzl, ante o então iminente confronto do mundo comunista com o capitalista observou que eram judeus Marx e Rotschild, os expoentes dos campos antagonistas.

O compromisso com um ideal pode degenerar-se, fornecer um ímpeto inicial que acaba se traduzindo em sórdidas realidades cotidianas.
As coisas são assim, são dados da realidade. A empolgação com uma nova perspectiva desperta e desdobra energias. E o fator que desencadeia o processo se corrompe, na sua aplicação prática.

Alguns de nossos semelhantes (ou que já foram semelhantes), reconhecendo a impossibilidade de "servirem a dois senhores ao mesmo tempo", retiram-se do mundo, como sabemos da história de várias religiões.
Veja um deles, um místico cristão, San Juan de la Cruz, em Dichos de Luz y Amor:

As condições de um pássaro solitário são cinco:
Primeiro, que ele voe ao ponto mais alto;
Segundo, que não anseie por companhia, nem a de sua própria espécie;
Terceiro, que dirija seu bico para os céus;
Quarto, que não tenha uma cor definida;
Quinto, que tenha um canto muito suave.

Admirável, não?
Eu não tenho dúvida de que ele realmente viveu o seu êxtase, de que se alimentava de sua própria visão, de que não era um mero seguidor de palavras de ordem...

E por falar nisso, acho que recaímos, finalmente, no assunto que você levantou.
No sistema político de massas o vínculo das pessoas não é com a ordem natural, e sim com alguma alternativa de ordem social.
As ordens sociais que elaboramos não são estritamente racionais, mas fecundadas por um espírito, que as faz evolutivas ou as conduz a becos sem saída.
O movimento do espírito independe da vontade humana, mas nos é facultado sintonizá-lo e obedecer a seus comandos. Quando o ignoramos recaímos no pragmatismo mais abjeto, esquecemos nossos ideais, corrompemos nosso vínculo.
Acho que o ser humano, político ou não, é isso: um indivíduo ligado por uma linha invisível ao abstrato. Ligação esta que lhe cabe manter íntegra e polida, como se estivesse fazendo de sua vida uma oração de louvor a Deus...

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