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27 de mai de 2011

Mais uma baita explicação

Como a esquerda errou com o Islam

por Daniel Greenfield
Original: How the Left Went Wrong with Islam
Tradução: DEXTRA

O que torna a sub-reptícia correção política a respeito do Islam tão espantosa é a sua novidade. Não faz tanto tempo assim que tanto a Direita quanto a esquerda concordavam ambas que, como religião e movimento político, ele era perigosamente atrasado e violento.

De Winston Churchill ("A religião maometana aumenta, ao invés de reduzir, a fúria da intolerância") a Karl Marx, ("O Islamismo condena a nação dos infiéis, estabelecendo uma permanente hostilidade entre os muçulmanos e os infiéis"), proeminentes figuras na Direita e na esquerda possuiam uma compreensão realista do Islam. Elas o desprezavam como sendo violento, bárbaro, ignorante e perigoso. A Direita via o Islam como uma ameaça à hegemonia cristã ocidental. A esquerda o via como um movimento reacionário de fanáticos supersticiosos. Elas podiam louvar os generais ou cientistas árabes, mas não o próprio credo.

Onde, então, foi parar aquele consenso perdido sobre o Islam? Pode-se encontrar uma resposta na União Soviética.

Ao contrário da Europa Ocidental, o Império Russo tinha uma grande população muçulmana. Enquanto os socialistas ocidentais visavam uma população majoritariamente cristã, tomar o Império Russo era praticamente impossível sem fazer uma aliança com os muçulmanos orientais. Esta diferença moldaria a atitude socialista em relação ao Islam.

Embora os comunistas desdenhassem o Cristianismo e o Judaísmo como sendo superstições atrasadas, eles tiveram uma atitude diferente em relação ao Islam. Lênin prometeu aos muçulmanos que suas mesquitas seriam protegidas pela revolução e enfatizou uma atitude de sensibilidade cultural que respeitava as tradições muçulmanas. As ativistas comunistas usavam véus ou cobriam o cabelo para trabalhar com as populações locais. O mais chocante é que enquanto os comunistas desmantelavam a Igreja Ortodoxa e as sinagogas judaicas, tribunais da lei islâmica da Xaria estavam sendo administradas sob um Comissariado Soviético de Justiça.

Um dos efeitos mais notáveis da aliança foi a tentativa comunista de encontrar um terreno em comum, articulando sua doutrina em termos islâmicos. Os comunistas faziam campanha contra a religião como sendo uma superstição, mas isto era traduzido como Khurafat, uma campanha para limpar as formas heréticas de magia. A diferença era substancial e fundamental. Enquanto os comunistas no resto da União Soviética punham a religião fora da lei, os comunistas muçulmanos extirpavam heresias sob a autoridade da revolução. A URSS tinha se tornado a implementadora do Islam.

A tradução das idéias socialistas nos termos muçulmanos criou a ilusão de um terreno em comum. Ambos os lados ouviam o que queriam ouvir. Mas as idéias comunistas e muçulmanas de revolução eram dramaticamente diferentes. Enquanto Moscou falava de igualdade das mulheres, os comunistas muçulmanos enchiam seus yurts sujos de esposas-crianças. Quando os líderes soviéticos foram perceber o que estava acontecendo eles já tinham uma guerra civil nas mãos. Os comunistas venceram no curto prazo, mas somente ao custo de aceitar práticas muçulmanas como a poligamia. E os muçulmanos podem ter vencido a guerra de longo prazo.

A estranha fusão entre o Islam e comunismo não durou muito, mas teve um impacto duradouro sobre a visão da esquerda a respeito do Islam. Ela transformou o Islam, aos olhos de muitos socialistas ocidentais, em um movimento progressista. A legitimidade temporária outorgada aos jihadistas pan-islâmicos e os boletins trombeteando a natureza progressista do Corão e o brilho de Maomé vindo da pátria do socialismo alterou a visão de muitos socialistas e os ensinou a ver os muçulmanos como aliados. Pode até ter dado a alguns deles a idéia de que introduzir grandes populações muçulmanas na Europa seria a chave para uma revolução bem-sucedida.

Slogans como "Vida longa à União Soviética, vida longa à Xaria", ecoam hoje entre a esquerda. A atitude soviética de ver o Islam como uma forma imatura de socialismo informa a maior parte da cobertura a respeito da Irmandade Muçulmana. Também foi assim no caso do aiatolá Khomeini, durante a revolução iraniana.

As "Teses sobre a Questão Ocidental" do Quarto Congresso da Internacional Comunista trataram o Islam como parte da "grande diversidade dos movimentos revolucionários nacionais contra o imperialismo." Mas diversidade não queria dizer igualdade. Diversidade, nestas teses, significava atraso. O Islam era Comunismo para selvagens. O Corão era Das Kapital para gente primitiva. "À medida em que os movimentos de libertação crescerem e amadurecerem", diziam estas teses, "os slogans político-religiosos do pan-islamismo serão substituídos por demandas políticas."

O Islam era um estágio intermediário no caminho para o comunismo. No final, sua bagem política iria cair e ele se tornaria um movimento plenamente político e anti-imperialista. Estas mesmas idéias são amplamente compartilhadas pela esquerda hoje. É assim que eles conseguem justificar sua aliança com a Irmandade Muçulmana. Como os jihadistas, a Irmandade Muçulmana é de esquerda, só que ainda não sabe. Os muçulmanos pensam que Moisés e Jesus eram muçulmanos, mas não sabiam. A esquerda acredita que Maomé era um progressista, mas não sabia.

As Teses distinguiam entre as classe dirigentes muçulmas e todas as outras. "Somente entre povos como os nômades e os semi-nômades, onde o sistema feudal-patriarcal ainda não se desintegrou ao ponto em que a aristocracia nativa está completamente dissociada das massas, é que os representantes da eleite podem se apresentar como líderes ativos na luta contra a opressão imperialista (Mesopotâmia, Marrocos, Mongólia)". Dois dos três exemplos listados eram muçulmanos. Esta explicação convoluta lhes permitiu incluir os líderes muçulmanos e manter o governo tribal e islâmico como estando integrado com as massas. Uma explicação genuína para a manutenção dos mini-califados que os pan-islamistas queriam.

Embora os comunistas dos anos 20 ainda distinguissem seu credo como sendo superior e o Islam como sendo inferior, estas distinções foram erodidas entre a esquerda pós-moderna, ao ponto de deixarem de existir. Todos os movimentos revolucionários são tratados como iguais, desde que sejam apontados contra o imperialismo ocidental. Os islamistas são apenas parte daquela "grande diversidade". Sua abordagem da justiça social é um aspecto de sua cultura. Sua perversidade embasa a aliança vermelha e verde.

Em 1920, o Congresso do Povo de Baku conclamou a uma "guerra santa", uma "ghazavat" contra a Grã-Bretanha. "Os povos do Oriente, unidos com o proletariado do Ocidente sob a bandeira da Internacional Comunista... convocam nossos povos a uma guerra santa."

Invocando tanto "a bandeira verde do Profeta" quanto "a bandeira vermelha da Internacional Comunista", nesta "primeira guerra santa de verdade" com a sanção dos ulemás (clérigos islâmicos), a aliança vermelha e verde foi constuída sobre uma falha geológica. Era uma falha geológica sobre a qual Marx poderia tê-los alertado, se eles tivessem estado dispostos a ouvir.

Karl Marx havia observado que "O Corão e a legislação muçulmana que dele emanam reduzem a geografia e a etnografia dos vários povos à distinção simples e conveniente entre duas nações e dois países, o dos fiéis e o dos infiéis" e acrescentou: "O infiel é o inimigo."

Os comunistas, como seus homólogos modernos, não entenderam esta distinção simples e conveniente. Eles achavam que podiam misturar a bandeira vermelha e a verde. Os exércitos muçulmanos lutariam em guerras santas para eles e o secularismo soviético no final substituiria o Islam. Sua incapacidade em entender o que é o Islam; sua opinião de que eles poderiam se aliar e ficar do mesmo lado que os exércitos dos fiéis; de que eles podiam conclamar uma Guerra Santa "contra a Grã-Bretanha imperialista" e fazê-la "queimar com um fogo inapagável" e ainda assim não se queimarem; tudo isto foi repetido não só pela esquerda, mas pelos Estados Unidos e pela Europa.

A União Soviética tentou transformar a identidade muçulmana em uma identidade comunista. E este esforço facrassou feio. Os comunistas continuaram sendo infiéis. Agora estamos tentando transformar a identidade muçulmana em uma identidade democrática e também estamos fracassando miseravelmente. A identidade muçulmana não vai se ampliar para nos incluir. Do mesmo modo que não se ampliou para incluir os comunistas. Nossos esforços para secularizar a identidade muçulmana e torná-la algo mais amplo nunca vão alcançar além de um pequeno número de pessoas que concordam conosco.

O Islam não é uma identidade em desenvolvimento, mas uma identidade divisora. Uma idantidade que define a si mesma em contraste com o infiel. E ela precisa de que o infiel ofereça este contraste. "Os navios corsários dos estados berberes", escreveu Marx, "eram a esquadra sagrada do Islam." Não por causa de alguma função religiosa que os corsários estivessem realizando, mas tão somente pelo simples fato de que estavam combatendo os infiéis. O contraste é a essência do Islam. Só mantendo distinções entre si e o infiel é que o muçulmano sabe quem ele é.

Bertrand Russell identificou o fanatismo político como a identidade comum tanto dos muçulmanos quanto dos comunistas, escrevendo que "o maometismo e o bolshevismo são práticos, sociais, não-espirituais, preocupados em ganhar o império deste mundo." A obssesão em ganhar o "império deste mundo" levou a esquerda a uma aliança com os islamistas. A irracionalidade mútua de ambos os lados (movimentos caracterizados ambos pela incapacidade de tirarem lições seus próprios fracassos), os levou adiante em suas pretensões descaradas de império. A única coisa com que eles concordam é em sua oposição ao atual sistema. Mas sua nova ghazadat não terminará em um mundo melhor, mas na infelicidade e na derrota de todos.

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