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1 de jan de 2013

A manteiga da Nova Zelândia em Cuba


por Yoani Sánchez

O frango vem do Canadá, o sal mostra na etiqueta que vem do Chile, o molho tropical é “made in USA” e o açúcar do Brasil. O leite tem uma vaquinha holandesa pintada no tetra pack, o sumo de limão foi processado no México e os hamburguers avisam em letras grandes que são “Cem por cento carne argentina”. Na embalagem do queijo se esclarece que é gouda proveniente de terras alemãs, nas bolachas uns caracteres chineses explicam sua origem enquanto o arroz foi cultivado nos alagados vietnamitas. Estamos nos afogando no estrangeiro!
Por isso perguntei a uma amiga economista o porquê da manteiga da loja do nosso bairro viajar da Nova Zelândia. Por que não podemos produzir um alimento tão básico? – e insisti – Tampouco há um lugar mais próximo de onde trazê-lo? A jovem graduada pela Universidade de Havana respondeu-me com a mesma frase que intitula um programa humorístico: “Deixa que eu te conte…” Então me contou que ao terminar seus estudos puseram-na para cumprir o Serviço Social numa dependência do Ministério da Indústria Alimentícia. Imediatamente notou as vultosas faturas de fretes pagos para transportar mercadorias de países distantes. Levou ao diretor uma lista com algumas delas, entre as quais constava a de leite em pó comprado num ponto longínquo da Oceania. O homem limpou a garganta e lhe esclareceu. “Nem te metas nisso, pois se diz que essa fábrica de lá é de propriedade de um hierarca cubano”.
Não me surpreenderia que indivíduos bem posicionados na rede de poder desta Ilha possuam indústrias no exterior sob nomes de fachada. Igualmente inaceitável seria que, além disso, privilegiassem a importação dessas empresas ao invés de outras mais próximas e mais baratas. Ou seja, desse modo parte do dinheiro dos cofres nacionais terminará nos bolsos de uns poucos – também nativos – que seriam também os que decidem de quem comprar. Como se um hábil ilusionista passasse, sem que se visse, um maço de cartas da sua mão esquerda para sua mão direita. Talvez este seja um dos motivos do porque certas marcas – muito ruins e caras – exibem-se nas prateleiras das nossas lojas. O velho truque de “comprar de si mesmo” estaria causando gastos excessivos ao país e asfixiando produtos nacionais de melhor qualidade e menor preço.
Já sei leitor, tudo isto pode ser fruto de uma grande paranóia da minha amiga… E também da minha parte; porém tenho a esperança de que um dia se saberá, tudo se saberá.

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