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14 de out de 2012

Rumpelstiltskin


por Yoanni Sanchez, presa em Cuba


Ainda levo na pele e bem dentro das fossas nasais o suor daquelas três mulheres que me enfiaram num carro da polícia. Grandes, corpulentas, implacáveis, levaram-me até aquele quarto onde não havia janelas e o ventilador desfeito apenas jogava frescor até elas. Uma me olhava com especial ironia. Na melhor hipótese meu rosto lhe recordava alguém do passado: uma adversária na escola, uma mãe despótica ou uma amante perdida. Não sei. O que lembro é que, na tarde de 5 de outubro, seu olhar queria me destruir. Foi ela que apalpou sob minha saia com grande prazer, enquanto outras duas uniformizadas me agarravam para cumprirem a “exigência”. Mais do que buscar algum objeto escondido, essa busca perseguia o objetivo de me deixar com uma sensação de violação, de impotência e de estupro.
A cada seis horas trocavam minhas guardiãs. No turno da meia noite mostravam-se menos rígidas, porém eu me encerrei num mutismo e nunca respondi as suas perguntas. Fugi de mim mesma. Optei por dizer a mim mesma: “tiraram-me tudo, até o grampo de cabelo, porém – revistadores ridículos – não puderam tomar meu mundo interior”. Desse modo que decidi me refugiar, durante as longas horas de uma detenção ilegal, no único que possuía: minhas lembranças. O aposento queria parecer limpo e ordenado, porém cada coisa tinha sua porção de sujeira ou ruptura. O chão de placas de granito claro estava coberto por uma boa dose de limo acumulado. Fiquei olhando as figuras formadas pelas pedrinhas fundidas em cada azulejo e nas manchas de sujeira.
Lá surgia o magro semblante de Quixote, enquanto em cada canto consegui ver o frágil perfil do Bobo de Abela. Uns olhos oblíquos formados pela argamassa e as pedrinhas se pareciam, incrivelmente, aos da protagonista do filme Avatar.  Eu ria e minhas vigilantes constantes começavam a acreditar que a minha negativa de provar alimentos ou água estava literalmente fritando o cérebro. Observei no granito irregular o Corcunda de Notre Dame e a figura esbelta de Gandalf, com báculo e tudo. Porém sobre todas aquelas formas que brotavam de tão tosco pavimento havia uma – mais intensa – que parecia brincar e se rir frente aos meus olhos. Talvez fosse o efeito da sede ou fome, a verdade é que não sei. Um anão de barba comprida e olhar cínico gracejava de maneira astuciosa.
Era Rumpelstiltskin, o protagonista de um conto infantil onde a rainha é obrigada a adivinhar seu nome complicado, pois do contrário deveria entregar ao anão despótico sua mais apreciada posse: seu próprio filho. O que aquele personagem fazia no meio da minha detenção temporária? Por que o via por cima de tantas outras referências visuais que acumulei na minha vida? Intuí a resposta imediatamente. “És Rumpelstiltskin, disse-lhe em voz alta e as minhas carcereiras me olharam preocupadas. “És Rumpelstiltskin – repeti – e sei como te chamas”. “És como as ditaduras que uma vez que alguém começa a chamá-las pelo seu nome, é como se começasse a destruí-las”.

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