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12 de fev de 2013

As nações não têm interesses

por Carlos Alberto Montaner, para o jornal paraguaio ABC Color

Jeane Kirkpatrick, a notável ensaísta e diplomata americana da era Reagan, costumava dizer, com alguma tristeza, que ela, como acadêmica, tinha sido treinada para buscar a verdade, mas, como diplomata, às vezes sua detestável função era ocultá-la.

O professor panamenho Guillermo (Willy) Cochez, proeminente democrata-cristão, ex-embaixador de seu país à OEA no atual governo de Ricardo Martinelli, enfrentou um dilema semelhante aos que mortificavam Kirkpatrick, e optou por dizer a verdade e obedecer à sua consciência, em vez de mentir ou esconder-se atrás de uma montanha de eufemismos. Essa postura lhe custou o emprego, mas ele ganhou o respeito de muitas pessoas.

O incidente ocorreu em 16 de janeiro na sede da OEA em Washington. Naqueles dias, se avaliava o caso insólito do presidente reeleito dos venezuelanos, Hugo Chávez, internado em um hospital de Havana, supostamente morrendo ou em estado muito grave, circunstância que deveria resolver-se de acordo com a Constituição, cujo texto estabelecia claramente que, ante fatos dessa natureza, deveriam realizar-se eleições em trinta dias, convocada pelo presidente da Câmara.

Ao Embaixador Cochez, que também é professor na Faculdade de Direito de uma universidade panamenha, pareceu intolerável o governo venezuelano violar a lei, ignorar a ausência de Chávez, e transmitir ilegalmente a autoridade ao vice-presidente Nicolas Maduro, tudo isso com a aprovação da OEA e de seu cantinflesco secretário-geral, José Miguel Insulza. Anteriormente, o mesmo organismo julgou com muita severidade as destituições dos presidentes Manuel Zelaya, de Honduras, e Fernando Lugo, do Paraguai, embora ambos os processos tenham se realizado dentro da lei em vigor nesses países.

Para Cochez, que tinha uma longa história pessoal de luta contra a narcotirania panamenha de Manuel Noriega, e de solidariedade com outros países que tentavam estabelecer a democracia, como no El Salvador de Napoleão Duarte na década de oitenta, seu amigo e compadre social-cristão, esta era uma oportunidade de dizer a verdade e ajudar os venezuelanos livres a denunciar o que realmente estava ocorrendo na Venezuela.

Em última análise, a Carta Democrática, assinada por todos os países membros da OEA, dava razão a Cochez. A Venezuela não era uma democracia verdadeira, mas uma variante de despotismo, sancionada nas urnas, onde não se respeitavam os direitos das minorias e não existiam poderes independentes. O Caudilho havia fagocitado as funções do Judiciário, enquanto o Parlamento, com uma maioria imposta por regras eleitorais abusivas, era apenas uma caixa de ressonância da voz do dono.

Ante este episódio, que mostra a consistência moral de Guillermo Cochez e a linguagem dupla e a covardia de muitas chancelarias, vale a pena recordar um item que é muitas vezes esquecido: é falso que as nações devem escolher entre os seus interesses e seus princípios.

Na realidade, as nações somente podem ter princípios. Nações são abstrações. São tribos unidas por laços espirituais intangíveis. São os indivíduos, as empresas, os partidos, que têm interesses.

O Senhor Chávez tem corrompido numerosos grupos e líderes políticos com suas maletas cheias de petrodólares, como as que se descobriram na Argentina; e tem extirpado a decência de comportamento de países pequenos que se beneficiam de envios de petróleo em condições favoráveis, como ocorre em quase todo o Caribe, mas essa conduta imoral tem um nome no direito penal: "submissão voluntária à extorsão".

Todos esses políticos e governantes latino-americanos que olham para outro lado quando o chavismo atropela os venezuelanos, fecha ou assedia os meios de comunicação, ajuda as narcoguerrilhas comunistas colombianas, conspira com a ditadura teocrática iraniana para desenvolver armas nucleares, ou contribui com recursos para o triunfo de seus cúmplices na construção desta grande jaula chamada socialismo do século XXI, não estão defendendo os interesses de seus países: estão pisoteando os princípios em que se assentam suas nações. Estão apodrecendo as bases morais das sociedades que dizem representar. Isso, simplesmente, é muito grave.

Obrigado, Embaixador Cochez, por se opor a essa imundície.

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