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27 de fev de 2013

"Black Elk Speaks"

Alce Negro Fala é um livro fruto do encontro, ocorrido em 1930, de John Neihardt com um ancião índio Sioux Oglala. Neihardt andava à procura dos remanescentes do movimento messiânico indígena que culminou no massacre de Wounded Knee, em 1890. Mais especificamente, andava à procura de algum "medicine-man" que houvesse atuado como guia espiritual daquele movimento. Encontrou Alce Negro, ... que já estava à sua espera, aguardando a chegada de um ouvinte a ele destinado...
Exímio "contador de histórias", Alce Negro encarna à perfeição as tradicionais personagens encarregadas da transmissão oral da cultura, espécie de oráculos, por assim dizer, comuns nos povos antigos. 
Assim, suas narrativas não são meras reminiscências de um idoso, ou enumeração sistemática de fatos históricos relevantes; antes, são elaborações intencionadas, vivificadas pela sua experiência, conhecimento e sabedoria. Produzem bem mais do que uma satisfação da curiosidade, ou um encantamento com o diferente, também ali presentes, mas transmitem deliberadamente um discernimento dos fatos, além dos fatos em si - o que vem a ser, afinal, o seu real propósito e o exercício de sua arte de educador.
Segue uma amostra, para apreciação, com a ressalva de que o conjunto da obra é muito mais abrangente do que possa fazer supor este pequeno conto:
  

(...) ainda me lembro de uma estória que ele me contou acerca de um jovem lakota chamado Cavalo Alto (High Horse), e das dificuldades por que passou para conseguir a rapariga que queria. Uatani disse-me que tudo aconteceu exatamente como ele me contou, o que é bem provável. Mesmo que não tenha sido assim, podia tê-lo sido. É essa história que te vou contar agora.

O Namoro de Cavalo Alto

   Nos velhos tempos não era tarefa fácil arranjar uma rapariga para casar. Muitas vezes era mesmo bastante penoso e implicava grande espírito de sacrifício. Imaginemos que eu sou um jovem e vi uma rapariga tão bonita que fico doente de amor só de pensar nela. Não posso simplesmente chegar ao pé dela, dizer-lhe o que sinto, e casar com ela se ela estiver de acordo. Primeiro tenho de usar toda a minha astúcia para conseguir falar com ela, e isto é só o começo de uma longa história.
   Imaginemos que gosto tanto de uma rapariga que ela não me sai da cabeça, mas que ela não me liga e os pais a vigiam de perto. Vou-me sentindo pior a cada dia que passa; então, talvez me aproxime furtivamente do tipi dela, ao abrigo do escuro, esperando que ela saia. É possível que ali passe toda a noite, sem dormir, e que ela não saia do tipi, fazendo-me sentir ainda pior. Também pode acontecer que me esconda num arbusto perto da nascente onde ela vai buscar água, e quando ela surgir, se ninguém estiver a ver, salto-lhe ao caminho, retenho-a e faço com que ela me ouça. Fico desde logo a saber se ela gosta de mim, pois, se for esse o caso, há-de ficar embaraçada e, possivelmente, não dirá uma palavra e nem sequer me olhará de frente. Então deixo-a ir e fico à espreita da oportunidade para me encontrar com o pai a sós, para lhe dizer quantos cavalos lhe posso dar em troca de sua bela filha. Nessa altura hei-de encontrar-me em tal estado que seria capaz de lhe oferecer todos os cavalos do mundo se os tivesse.
   Voltando a Cavalo Alto, havia lá na aldeia uma rapariga tão bonita aos olhos dele que andava doente de tanto pensar nela, e cada dia pior. A rapariga era bastante tímida e os pais estavam-lhe muito presos, pois já não eram jovens e ela era filha única. Vigiavam-na de perto durante todo o dia e arranjavam maneira de a terem segura também de noite, enquanto dormiam. Estavam de tal modo obcecados com ela que lhe fizeram um leito de peles, e depois de saberem que Cavalo Alto andava a tentar aproximar-se dela atavam-na à cama com tiras de pele durante a noite para que ninguém a levasse enquanto dormiam, pois também não tinham a certeza se a rapariga não estava à espera de ser levada. Depois de rondar nas imediações durante algum tempo, escondendo-se à espera da rapariga e cada vez mais desesperado, Cavalo Alto conseguiu finalmente apanhá-la sozinha e obrigá-la a falar com ele, ficando a saber que ela talvez gostasse um bocadinho dele. A situação, já se vê, não melhorou muito; bem pelo contrário, agravou-se ainda mais, mas agora Cavalo Alto sentia-se forte como um bisão e foi falar diretamente com o pai, dizendo-lhe que gostava tanto da filha que lhe oferecia dois bons cavalos por ela, um novo e o outro ainda em muito bom estado. Mas o ancião limitou-se a fazer um gesto com a mão, dando a entender a Cavalo Alto que este devia parar de dizer tolices e ir-se embora.
   Cavalo Alto ficou mais desesperado que nunca. Entretanto, um outro jovem disse que lhe emprestava dois cavalos que mais tarde deveriam ser retribuídos. Cavalo Alto foi de novo ter com o ancião, oferecendo-lhe desta vez quatro cavalos pela filha, dois novos e os outros dois ainda com vigor. Mas o pai da rapariga voltou a agitar a mão sem proferir palavra. Cavalo Alto voltou a rondar o local até conseguir falar novamente com a rapariga, pedindo-lhe que fugisse com ele, dizendo-lhe que se ela não acedesse ele era capaz de morrer ali mesmo. Mas ela não acedeu, dizendo-lhe que queria ser comprada como uma mulher que se preza. Por aqui se vê que ela também se tinha em boa consideração.
   Esta recusa pôs Cavalo Alto em tal estado que deixou de comer, caminhando tão cabisbaixo que dava a ideia de poder tombar e morrer a qualquer momento. Veado Vermelho (Red Deer) e Cavalo Alto eram grandes amigos, andando quase sempre juntos. Reparando no comportamento do amigo, perguntou-lhe Veado Vermelho: “Primo, o que tens tu? Andas mal da barriga? Tens ar de quem está para morrer.” Então Cavalo Alto contou-lhe o que se passava, dizendo-lhe que não conseguiria viver muito mais se não casasse depressa com a rapariga. Depois de refletir durante algum tempo, Veado Vermelho falou assim: “Primo, tenho um plano; se fores homem para fazer o que eu disser há-de dar tudo certo. Está visto que ela não vai fugir contigo e que o pai não aceita quatro cavalos, quando quatro cavalos é tudo que lhe podes oferecer. A única alternativa que te resta é raptá-la e depois fugir com ela. Regressas passado algum tempo, e nessa altura o pai já nada pode fazer porque ela será tua mulher. Aliás, o mais provável é que ela queira mesmo que a leves à força.” 
   Puseram-se os dois a acertar os pormenores, dizendo Cavalo Alto que gostava tanto da rapariga que era homem de fazer tudo o que Veado Vermelho ou alguém lhe dissesse para fazer. Era noite alta quando os dois se aproximaram furtivamente do tipi da rapariga, pondo-se à escuta até terem a certeza de que lá dentro todos dormiam profundamente. Chegado o momento, Cavalo Alto rastejou para dentro do tipi com uma faca na mão, com a qual deveria cortar as tiras de pele que amarravam a rapariga, enquanto Veado Vermelho arrancava as estacas que seguravam o tipi daquele lado, para depois ajudar a arrastar a jovem para o exterior e amordaçá-la. De seguida, tudo o que Cavalo Alto tinha a fazer para ser feliz para o resto da vida era pô-la à sua frente em cima do cavalo e fugir.
   Quando Cavalo Alto se infiltrou no tipi estava de tal modo nervoso, ouvindo o coração bater tão alto, que teve medo de acordar os pais. Mas tal não sucedeu, e passado pouco tempo começou a cortar as tiras de pele. Sempre que cortava uma ouvia-se um estalo que quase o matava de medo. Já havia cortado todas as tiras até às coxas da moça quando, num gesto de maior nervosismo, a faca se lhe escapou, picando a rapariga, que lançou um enorme grito. Os pais saltaram da cama e puseram-se também a gritar. Por esta altura já Cavalo Alto saíra do tipi e se pusera em fuga com Veado Vermelho, mais parecendo duas corças. Os pais e alguns outros foram atrás dos jovens, mas estes haviam-se sumido no escuro e ninguém soube quem eram.
   Se já alguma vez desejaste uma rapariga bonita, deves adivinhar o estado lamentável em que Cavalo Alto se encontrava nesse momento. Sentia-se profundamente infeliz, tendo o aspecto de quem vai morrer à fome, isto se não caísse morto a qualquer momento. Veado Vermelho continuou a pensar no caso e, passados alguns dias, foi ter com Cavalo Alto e disse-lhe assim: “Primo, não desanimes! Tenho outro plano e tenho a certeza de que, desta vez, se tiveres coragem, tudo vai dar certo.” Cavalo Alto respondeu-lhe assim: “Tenho mais do que coragem para fazer tudo o que alguém possa imaginar, desde que consiga ficar com a rapariga.”
   Depois de se terem afastado da aldeia, Veado Vermelho disse a Cavalo Alto para este se despir completamente. De seguida pintou o corpo do amigo todo de branco com listras pretas por cima e círculos, também eles pretos, à volta dos olhos. Cavalo Alto ficou com um aspecto tão assustador que Veado Vermelho, depois de acabada a pintura e de olhar bem para o amigo, não deixou de se assustar um bocadinho. “Agora, se voltares a ser surpreendido, ficarão tão assustados que hão-de pensar que és um espírito mau e terão medo de ir atrás de ti”, explicou Veado Vermelho.
   Já a noite ia alta e todos dormiam a sono solto quando os dois se aproximaram novamente do tipi da rapariga. Tal como da primeira vez, Cavalo Alto infiltrou-se no tipi de faca na mão, enquanto Veado Vermelho esperava do lado de fora, pronto para arrastar a moça para o exterior e amordaçá-la quando o amigo tivesse cortado todas as tiras. Cavalo Alto aproximou-se silenciosamente do leito da jovem e começou a cortar as tiras, sem deixar de pensar: “Se me vêem assim com esse aspecto ainda me dão um tiro.” A rapariga estava com o sono inquieto, às voltas na cama, e Cavalo Alto progredia lentamente e com cuidado por causa do barulho que as tiras faziam ao serem cortadas. Mas algum barulho ele deve ter feito, porque a mãe da jovem acordou de repente, dizendo para o marido: “Acorda homem! Está alguém dentro do tipi!” O pai, no entanto, estava bastante ensonado e não queria ser incomodado. “É claro que está alguém dentro do tipi”, replicou ele, “Vê lá se dormes e não me aborreças.” E voltou a ressonar.
   Cavalo Alto ficou de tal modo assustado que se quedou colado ao chão o mais que podia. Mas, como compreendes, há muito tempo que ele não dormia bem por causa da rapariga, e enquanto ali esteve deitado à espera de ouvir a mulher ressonar esqueceu-se de tudo, até da beleza da jovem. Veado Vermelho, que esperava do lado de fora o momento de intervir, não parava de pensar no que estaria a acontecer dentro do tipi, mas não se atreveu a chamar pelo amigo. Com o dia prestes a nascer, Veado Vermrlho viu-se obrigado a abandonar o local com os dois cavalos que trouxera para o amigo e para a rapariga, porque se arriscava a que alguém desse com ele.
   Quando a luz começou a entrar no tipi e a rapariga acordou, vendo um animal aterrador, todo branco e com listras negras, jazendo adormecido ao lado da cama, pôs-se a gritar, logo seguida pelos pais. Cavalo Alto levantou-se de um salto, assustado de morte, quase deitando o tipi abaixo na fuga. De toda a aldeia começou a acorrer gente armada com espingardas, arcos e machados, tudo aos gritos. Mas Cavalo Alto corria agora tão depressa que mal tocava com os pés no chão, e o aspecto dele era tão assustador que todos se afastavam do seu caminho, deixando-o fugir. Alguns mais destemidos quiseram disparar sobre ele, mas os outros impediram-nos, dizendo que podia tratar-se de um ser sagrado e que matá-lo podia trazer alguma desgraça. Cavalo Alto fugiu em direção ao rio, não muito longe dali, e no meio da vegetação descobriu um tronco oco onde se escondeu. Passado algum tempo, uns quantos homens aproximaram-se do local, e Cavalo Alto ouviu-os dizer que podia tratar-se de algum espírito mau que saíra da água e que para lá tinha voltado.
   Nessa manhã houve ordens para levantar o acampamento e seguir viagem, o que aconteceu com Cavalo Alto escondido no seu tronco oco. Veado Vermelho, que assistira a tudo do seu tipi, tentava parecer tão surpreendido e assustado como os outros. Assim, quando todos se puseram em marcha, voltou sorrateiramente ao local onde vira desaparecer o amigo. Uma vez aí chegado, pôs-se a chamar pelo companheiro, obtendo resposta pronta, pois Cavalo Alto reconhecera-lhe a voz. Depois de ajudar o amigo a lavar a tinta do corpo, sentaram-se os dois na margem a falar dos problemas de cada um. Cavalo Alto disse que nunca mais voltaria à aldeia enquanto fosse vivo e que nada se importava com o que lhe acontecesse, acrescentando que ia enveredar sozinho pela senda da guerra. “Nem penses que vais para a guerra sozinho, primo, pois eu vou contigo”, disse-lhe Veado Vermelho.
   Veado Vermelho fez todos os preparativos e nessa noite entraram os dois na senda da guerra. Após vários dias de caminho, avistaram um acampamento Crow (os Crows e os Lakotas eram inimigos) ao pôr-do-sol. Esperando pelo cair da noite, aproximaram-se furtivamente do local onde os cavalos pastavam, mataram o guarda que, imaginando os lakotas bem afastados dali, estava longe de pensar em inimigos, e puseram em fuga cerca de uma centena de cavalos. Conseguiram um bom avanço, visto que os animais debandavam a galope, e só de manhã é que os guerreiros crow conseguiram recuperar alguns cavalos. Veado Vermelho e Cavalo Alto conduziram a manada durante três dias e três noites até alcançarem a aldeia do seu povo. Uma vez no acampamento, levaram os cavalos diretamente até a entrada do tipi da rapariga. O pai estava lá dentro e Cavalo Alto chamou-o, perguntando-lhe se aqueles cavalos eram suficientes para ficar com a rapariga. O ancião, desta vez, não fez qualquer gesto com a mão. Não eram os cavalos que ele queria. O que ele queria era um filho que fosse um homem a valer e que prestasse para alguma coisa.
   E assim Cavalo Alto acabou por conseguir a rapariga, e eu acho que ele bem a mereceu.

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