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17 de fev de 2013

E da esbórnia fez-se a ordem

Grande post do blog Vespeiro:



Não, nem tudo está perdido. Há razões para sermos otimistas.

Na ressaca da queda do Congresso Nacional (Renan, Henrique Eduardo Alves) segui para os feriados do Carnaval, um tanto deprimido, com uma pergunta – “Porque o povo não reage?” (aqui) – e uma meia resposta – “Não ha ética, senhores. O que pode haver é polícia…” (aqui).

Três dias depois a leitora Helena Maria de Souza que, a julgar pelo que ela nos deixa entrever, é professora de escola pública, reagiu no espaço para comentários aqui doVespeiro, mas com outro desabafo parecido com o meu (aqui):

“Nós adoramos depender do Estado (pai patrão)…”, dizia ela.

“Tanto nas universidades quanto nos hospitais (públicos) o que mais se vê é a briga pelo poder”…



“É preciso que todos se sintam incapacitados, dependentes do Estado, dos governos e dos demagogos de plantão”…

“…revoltar-se contra o lulo-petismo implantado no país é ter de revoltar-se contra si mesmo. E deixar de se ver no espelho. Isto é possível?????

Com a palavra a psicanálise”.

Sim, Helena, tudo que você descreve é verdade.

Eu só discordo do verbo. Não é assim que nós somos. É assim que nós estamos.

E isso faz toda a diferença.

O homem é o bicho mais maleável da Natureza. O que mais rapidamente aprende com a adversidade e molda o seu comportamento para adaptar-se a ela.



Mas isso é uma faca de dois gumes.

Se esta característica jogou decisivamente a nosso favor enquanto se tratou de escapar ao jugo da Natureza, ela passou a jogar contra nós desde que, libertados dele, o problema passou a ser escapar ao jugo dos outros homens.

Você mencionou a “luta pelo poder”. Este é, pode-se dizer, um dos traços “recessivos” da nossa condição ancestral.

“Lutamos pelo poder” com as pernas e com os dentes enquanto foram essas as armas a definir quem tinha e quem não tinha o direito de transmitir os seus genes para mais adiante. Passaremos, eu espero, a faze-lo exclusivamente com o cérebro e a aplicação do conhecimento se chegarmos, um dia, a banir completamente a força bruta dessa contenda. Mas por enquanto, nesta fase intermediária em que nos encontramos, num ambiente onde a economia substitui a fome pura e simples que nos movia antes, a condição econômica de cada um é que passou a ser o fator de decisão.



As pernas e os caninos continuam lá, onde sempre estiveram, a nos lembrar do que essencialmente somos. Mas já não é a jugular do próximo que é preciso, literalmente, morder para ganhar o direito de continuar por aí e garantir um lugar para a sua posteridade. Basta aferrar-se a alguma boa veia da economia para garantir, para si e para os seus, um lugar ao sol.

A regra de ouro de Darwin – “sobrevivência dos mais adaptados” – continua valendo, intacta.

O que foi, então, que mudou?

Mudou quem faz a regra do jogo. Antes era a Natureza. E alterar a qualidade da regra estava totalmente fora do nosso alcance. Hoje a regra é feita por outros homens. Pode, portanto, ser alterada.

É a este progressivo ganho de manobrabilidade sobre a regra que se resume a epopéia que chamamos de “esforço civilizatório”.



O Brasil inteiro assistiu, por estes dias, os desfiles das escolas de samba do Rio e de São Paulo tantas vezes invocados, geralmente pelo lado negativo, como o retrato do que somos enquanto sociedade. Li que o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meireles, falou da complexa organização que esses desfiles envolvem, mas perdi a matéria quando saiu e não sei em que termos ele o fez. De qualquer maneira a observação é preciosa.

Uma escola de samba evoluindo pela avenida é algo muito mais complicado que os mecanismos de relojoaria que, no passado, fizeram a fama mundial do modo de organização suíço.

São quatro, cinco mil “peças” com funcionamento individual independente divididas em subconjuntos encadeados entre si, evoluindo todas no mesmo ritmo mas cada uma com movimentos e funções diferenciadas, um olho no todo outro no seu subtema particular (abre-alas, baianas, passistas, porta-bandeiras, alas temáticas, “bateras”, destaques, etc) fazendo evoluções complicadas em direção a um objetivo comum e executando esse todo com precisão milimétrica de tempo e espaço.



E tudo isso rola na maior alegria, sem falar nas enormes doses de criatividade, dedicação gratuita e altruísmo (ainda) envolvidas na coisa.

Ou seja, até na festa que, pela sua outra vertente, é sinônimo de esbórnia, o brasileiro é capaz de se organizar impecavelmente e vencer pelo merecimento desde que haja uma regra igual para todos e efetivamente imposta entre ele e o objetivo a ser conquistado.

Da esbórnia faz-se a ordem e a harmonia porque este é o único caminho para prevalecer na disputa por esse campeonato (a “luta pelo poder”) e cada erro, cada passo fora da regra custa, infalivelmente, a perda de pontos até o limite do rebaixamento ou da desclassificação.

É mais uma imitação da vida, como tudo que nós, humanos, “inventamos”, governos inclusive.



É aí que entra o meu ponto. O Brasil e os brasileiros não são, irremediavelmente, o que lhe parece que sejam neste momento de triunfo dos desviados. O Brasil e os brasileiros estãocomo você descreve, Helena, porque esta é a regra que lhes é imposta, desde “lá”, da mais alta tribuna que o país inteiro vê e ouve.

Quem não entra na putaria não entra na política. O bom comportamento é sistematicamente punido e a sacanagem infalivelmente premiada. Não é que lhes é dado exibi-lo; os corruptos literalmente esfregam o seu sucesso na cara do país; afirmam abertamente que foi através da corrupção que o obtiveram. E é de “lá” que a regra desce Brasil abaixo.

O país inteiro é capaz de apontar filho de que governo; fruto de que sacanagem é cada bilionário, cada mega empresário. No meio ambiente econômico em que vivemos, quem cumpre as regras civilizadas perde a condição de competir (interna e externamente). Perde a “luta pelo poder”. Perde o seu lugar ao sol.



Se o sucesso passa a ser uma confissão de culpa, instala-se a subversão geral. E, ironicamente, instala-se porque, ainda que com a maioria dançando conforme à música para sobreviver e “dar certo”, a noção de certo e errado, o senso de Justiça inato na nossa espécie, subsiste, como prova a sua própria manifestação, Helena.

Pois é em cima desses bons sentimentos que cinicamente atuam os fariseus da política, os mesmos de onde emana toda essa subversão. Se o sucesso é uma confissão de culpa, basta acionar essa tecla quando o desespero provocado por esse sistema de exploração passa da borda do suportável. Eles próprios convocam, então, o apedrejamento da “zelite” e lá vêm as expropriações e os atos de “justiça social” (contra o “judeu” da vez, a imprensa, o Judiciário ou o que quer que esteja incomodando mais no momento…), com os quais os reis dos ladrões posam de heróis e garantem mais um século de poder devolvendo ao povo miserável migalhas do que lhe vêm roubando desde sempre.



Do Mestre de Avis, lá no nascimento de Portugal, ao Lula aqui da sua antiga colônia tem sido assim, sem tirar nem por. E o que tem garantido a perenização dessa arapuca é o apagamento sistemático da memória do povo que se obtém cultivando zelosamente a ignorância, esta que hoje é oficialmente louvada como uma espécie de benção remissora no país de Lula.

O estudo da História é que é a psicanálise das sociedades, Helena. Só quem sabe como e porque se tornou o que é pode recusar voltar aos caminhos para o abismo tantas vezes percorridos antes, escolher novos e, assim, mudar o que virá a ser no futuro.

A reforma, portanto, só terá efeito se começar por cima. A boa regra só se imporá, país abaixo, se for infalivelmente imposta ao primeiro da fila.



E aí, a receita básica é conhecida:
. todos são iguais perante a lei e não haverá foros nem prisões especiais;
. nenhum poder e nenhum dinheiro que não seja fruto do esforço e do mérito;
. ao crime deve corresponder infalivelmente o castigo…

Voltamos ao ponto de partida, Helena. Mas agora com os olhos fixos “lá”. “Eles” é que têm de se ver no espelho desse povo que disputa tão limpa e lindamente na avenida, e não o povo seguir se deformando para caber no espelho distorcido deles.

Entender isso claramente, afirmar sistematicamente essa visão, é tomar consciência de quem é que tem “a força“; é começar a agir.



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